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Minh’alma

A primeira vez que gosto da profundidade em que alcança minh’alma.

Ser diferente é algo que precisa bancar consigo. Não há saída, ou aceita-te como és ou serás para sempre infeliz. Escolhi a primeira opção, mesmo que me mantenha em contato com o mais terrível em mim.
A profundidade em que alcança minh’alma, hoje, começa a me fazer feliz.
Afinal nascemos todos sozinhos e nús, somente vestidos de sobrevivência.
A luta pela vida é sangrenta mas temos todos conosco a similaridade humana de nossas diferenças.
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Coragem que nos move adiante

Eu queria andar nua ao vento

Queria buscar tua face em cada olhar

Eu queria andar descalça sem pensar

Queria encontrar

Tocar

A abertura do vento em meus cabelos

O novo não se sabe

Eu queria não ser mais o que já se foi

Quero olhar para o nada

E depois

Gozar, a tua paz

Alcançar além do mar

Horizonte, de fronte

Coragem que nos move

Adiante

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Deus é Feminino

Da série Readymade – Título Tinta Branca

Por causa de uma série de coisas pelas quais estou passando, ( escreverei sobre elas mais tarde, quando tiver atravessado a correnteza e tenha um tempo de suspiro e elevação para construir com palavras a vivência ), descobri suavemente e dolorosamente que Deus é feminino.

Ele ou melhor, Ela não pode se mostrar em toda a sua natureza, justamente pela necessidade de ser indecifrável a olhos mundanos.

Os olhos que a enxergam precisam travar uma batalha árdua em território carnal para se reencontrarem com Deus em sua poção divina. E essa poção é feminina no sentido mais amplo, da criação, da capacidade de adaptação, da descomunal força, do paradoxo que encerra em si, até mesmo da batalha a ser travada.

E talvez essa descoberta seja o despertar para o sentido de vida e morte, de construção e desconstrução, de finitude e renascimento no qual travamos nossas braçadas. No fundo, no fundo, gostaria de falar sobre isso através da arte.

 

 

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Empoderamento Feminino

©carolinakasting

Depois da noite de premiação do Oscars 90 #oscars90 , não poderia deixar de falar sobre o empoderamento feminino que, na minha opinião, vem acontecendo desde muito antes dessa palavra cair em uso.

Nós mulheres somos a resistência, sempre nos mantivemos em posição de resistência. Nossa condição nos colocou nesse papel, sempre estivemos na retaguarda de todas as transformações e conquistas da humanidade mas nunca pudemos usufruir de um lugar de igualdade. Parece que o mundo está mudando e a noite de ontem foi um sopro de alegria para nós.

Quem é oprimido por muito tempo, perde a voz. Ontem nós a recuperamos no discurso da atriz Frances McDormand. Um discurso repleto de uma atitude desprovida de auto referências e vaidade. Ela chama todas as mulheres para se levantarem e da um recado aos homens:

“Todas nós temos histórias para contar e projetos para financiar. Não falem conosco sobre isso nas festas esta noite. Nos convidem para seus escritórios daqui uns dias. Ou podem ir aos nossos. O que for melhor. E contaremos tudo sobre eles. Tenho três palavras para deixar com vocês esta noite, senhoras e senhores: cláusula de inclusão.”

Parece realmente que estamos ganhando voz e reconhecimento, pela nossa força que é imensurável.

Que venham oportunidades iguais, salários iguais e que sejamos ouvidas. Que diminuam as taxas de feminicídio, que o assédio não seja mais parte do nosso cotidiano.
Força para fazer valer tudo isso nós temos, genética e adquirida durante séculos de resistência humana. Basta nos enxergarmos dessa forma. Este será o nosso verdadeiro empoderamento.

Mulheres ativar!

https://g1.globo.com/google/amp/https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/oscar/2018/noticia/oscar-2018-frances-mcdormand-pede-e-todas-as-mulheres-indicadas-se-levantam.ghtml

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Por que os homens ficam mais bonitos e nós viramos sapos de pele fria?

Por que os homens ficam mais bonitos quando envelhecem, com suas entradas e marcas do tempo e nós, na nossa maioria, viramos barangas ou sapos de pele fria, todas com a mesma cara? Por que as marcas individuais de um homem são valorizadas e as nossas rejeitadas?
Perdemos, ou jamais olhamos no espelho nossa própria imagem com nitidez. Somos as pessoas mais julgadas da história. Nossa imagem foi construída pelo outro (homem). Mesmo que tenhamos feito no decorrer da história, atos heróicos de rebeldia, que foram muitos, ainda assim não conseguimos nos olhar no espelho e nos aceitar sem culpa.
O retorno que sempre tivemos dos outros foi taxativo, repleto de adjetivos. Adjetivos perfeitamente inalcansáveis ou degradantes.
Primeiro fomos chamadas de BRUXAS, por nossa sabedoria e sensibilidade para com a natureza, intrínsica no nosso fisiológico.
Depois, fomos taxadas de SANTAS, imaculadas ao ponto de conceber o filho de Deus, mais tarde, anuladas em nossa individualidade, fomos jogadas para fora do mercado e nos chamaram de NULAS, nem diria que nos chamavam, porque éramos como fantasmas funcionais do lar, não nos era dado o direito de opinião, e muito menos de reclamar da escravidão. Nessa época criamos nossos filhos, que eram sempre muitos (função nobre da mulher, a procriação). Com toda a força que nos é peculiar, parimos, amamentamos, alimentamos, trabalhamos, educamos, organizamos, gestamos e muitas de nós nunca foram sequer notadas.
Depois, fomos chamadas de REBELDES por nossos atos, por termos mostrado ao mundo que por trás da força masculina sempre existiu um alicerce feminino, até porque somos a fonte de todos, mas foi aí que nos enganamos. Conquistamos um espaço (tiveram que engulir a nossa potência de realização no mundo) mas esquecemos que o mundo, da forma que conhecemos, nos deu um retorno de uma imagem estereotipada na qual nem mesmo nós não reconhecemos.
Nossa noção de liberdade está um pouco equivocada a medida que nos dão opção de escolha mas não somos nós que fazemos nosso próprio caminho. Podemos sim escolher entre ser objeto sexual, guerreiras trabalhadoras, inteligentes assexuadas, feministas repulsivas, putas, mães desprovidas de auto estima.
Qual você quer ser? Eu gostaria de não ser nenhuma e ser todas ao mesmo tempo, gostaria de me ver no melhor de mim, real, humana, feminina.

Gostaria que nós mulheres a partir da consciência de que podemos construir nossa imagem no mundo, pudéssemos escolher quem desejamos ser, independente da relação com o masculino que é por demais necessária, até mesmo dentro de nós.

A consciência nos abre um caminho para entendermos que os estereótipos são armas de opressão. Ser um sex symbol pode ser um ato de transgressão como também pode corroborar com essa imagem machista de que a mulher continua a servir o homem sem direito a interesses e desejos próprios. No final, tudo acaba no interesse do homem, e arrisco dizer que aí é que reside a nossa culpa.

Este peso, podemos tirar dos nossos ombros mas só será possível quando nos olharmos no espelho e enxergarmos a imagem que queremos ter.

Fotos Pino Gomes