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Minh’alma

A primeira vez que gosto da profundidade em que alcança minh’alma.

Ser diferente é algo que precisa bancar consigo. Não há saída, ou aceita-te como és ou serás para sempre infeliz. Escolhi a primeira opção, mesmo que me mantenha em contato com o mais terrível em mim.
A profundidade em que alcança minh’alma, hoje, começa a me fazer feliz.
Afinal nascemos todos sozinhos e nús, somente vestidos de sobrevivência.
A luta pela vida é sangrenta mas temos todos conosco a similaridade humana de nossas diferenças.
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POEMA PROFUNDO – Amazônia

Começo.
Ela se fez vida
Nela, foi o princípio
Abundância
Em todas as suas entranhas
Pulsa pura, primitiva
Ela é terra, água e ar
Ela é tudo que existe
Porque sem ela não existe mar
Meio, entre começo e fim.

Como um coração, bombeia a seiva
Seu corpo não tem limite
Onipresente
São muitos corpos
Vivos, feitos
De matérias e formas diferentes
Das suas artérias
Ela é a Floresta que faz vida
No mais distante Ártico
No mais próximo Sertão

Então,
De água, terra e ar
Nasceu seu filho Homem
Elementar
Um dia, enlouquecido
Voltou-se contra si mesmo
Esse, que nasceu da sua placenta
Floresta universal
A mata
Atlântica
A selva
Amazônica,
A Taiga, Savana, Estepe, Tundra e Pluviais
Ele se levantou
Atravessou fronteiras
Do alto da sua cegueira
Enxergou
Fez diferença e segregou
Dos muros que construiu,
Extraiu horror
Tornou-se besta, a fera
Na esfera da morte
Alimentou-se de seus irmãos
Engoliu o próprio coração

Esse, filho de homem
Ateou fogo da mão
E perverso
Cometeu filicídio
Matou a Mãe,
Genocídio na Floresta
Detentora das almas, dos animais
Suicídio
Ateou fogo no pé,
O corpo todo ao chão
Matou a própria vida
Aquela que nutre
Coração e pulmão

Cego pelo ódio,
Fez, no futuro, seus filhos sufocados
Não mais Mãe, Filho, do Pai
Carrasco, canibal
Do mundo, da vida animal.
Fim.

Rio de Janeiro, agosto de 2019

POEMA cedido para o acervo Amazônia Chama

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EU ME DISPO

Photo by @jorgebispo

Eu me dispo
Eu me dispo da pele fake
De tudo que não me cabe
Da pele que querem superpor em mim
Eu me dispo
Da roupa que me machuca
Do rótulo que não me cura
Eu me dispo para reencontrar a menina
Tornar a ser a mulher dentro de mim
Eu me dispo para curar as dores

E me visto dos sonhos daquelas mulheres que sonharam antes de mim

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O FUTURO ESTÁ DE LUTO

Photo by Bob Wolfenson

Não sei, mas as coisas me parecem doer muito mais hoje do que em qualquer outro lugar. Hoje não temos lugar. Não habitamos nada. Não somos de lugar nenhum. Habitamos a rede vazia, com sua virtualidade real. As notícias chegam pelo dispositivo celular, sem licença para entrar, ou pior, sem irmos buscar.

A morte da Young, não, quem morre tão jovem, com tanto pra falar.

Tenho vontade de largar da web, sair caminhando pelo gramado da vida, pisar na terra, retirar espinhos. A dor dos espinhos reais me parece mais amena, atenta ao processo da vida, mas não, a morte sempre arranca a vida de nós. Sinto uma dor no peito, um nó na garganta, não adianta fugir. É preciso ter força, é preciso compreender, mesmo que seja impossível. As vidas são arrancadas de nós e as notícias nos invadem por essa ficção real que nós mesmos inventamos, tão devastadora e rápida, que nem mesmo a privacidade de nossas casas existe mais. Em paz.

A morte da Young, dos animais, dos meninos pretos da favela, dos nossos ancestrais. A notícia que não nos vai calar, jamais, é que são todas reais.


Como manter a sanidade nesse mundo louco?
Luta!
A luta que travamos por dentro, contra nossos fantasmas perversos
É a mesma externa, contra a bestialização da Humanidade.
Quem luta, permanece são.

Rio de Janeiro, agosto de 2019

©CarolinaKasting

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O Todo Pequenino

As coisas que vão no meu coração

não podem ser ditas

Pelo seu teor ordinário

Pelo seu imenso senso de inutilidade

Carrego em meu coração a humanidade
Desde a sua genesis ao seu fim
tudo aquilo que não é somente de mim
Sofro, por amor
Aquele do poeta
Aquele mundano que não se presta

As coisas que carregam meu coração
Não precisam ser ditas
São do mais elevado sofrer
São do mais rebaixado querer.

Quando somos o que desejamos
Não somos nada
Somos a humanidade inteira

Somos o caminho precário do todo pequenino.

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Às mulheres

Sempre me pergunto por que a história das mulheres não as reconhece em suas potencialidades. Há sempre uma grande luta que travamos com nós mesmas, lutamos para ser possível exercer nossas potencialidades e ao mesmo tempo, corresponder ao que está designado para nós, pois aquilo que está designado para nós, tende sempre a abafar ou a camuflar nossas potencialidades.

Aprendemos a vender ao outro aquilo que somos em nossa inteireza. Digo isto, ao fazer uma auto crítica, percebendo que aos quarenta e três anos ainda me assusto com a passagem do tempo em meu rosto e corpo, e me surpreendo ao pensar que é uma pena que aos vinte anos eu não pudesse viver toda essa plenitude que sinto agora.
Não me gosto quando me vejo, justamente porque carrego dentro de mim aquilo que me foi designado, ser para sempre jovem. Por que? Por que teria eu a capacidade inumana de ser para sempre jovem? Por que não poderia eu estampar no meu rosto as vivências que me fazem hoje ser plena de potencialidades. Por que tenho eu que parecer eternamente uma menina, pura e sem marcas? E mais uma vez não é possível ficar alegre verdadeiramente com o que sou, tornando conflituoso o sentimento que tenho de gostar muito mais de mim hoje do que antes.
Penso que, por ser atriz e vivenciar questões de uma personagem na ficção, percebo conflitos de uma outra mulher, e ao percebê-los entendo-os tão próximos de mim que poderiam ser meus.
Não ser mais jovem para viver o disparate da vida, ter responsabilidades que não me deixam voltar atrás, não me sentir plena por não parecer desejável ao perder o posto de mulher fetiche. Será que estes pensamentos são verdadeiramente meus?Pois sei que a mulher que me colocou no mundo também os tem, e a mãe dela também, e a mãe da mãe dela, perpetuando uma insatisfação que eu, Carolina, gostaria de cessar. Eu, realmente gostaria de parar com isso, mas entendo que não depende só de mim.

Me olhar no espelho, sem câmeras e dizer, que mulher bonita que sou, como sou potente, como fui capaz de ter realizado em mim tudo aquilo que desejei e somente pude fazê-lo porque vivi esses quarenta e três anos a lutar pelo que sou. E, assim servir de exemplo para as jovens mulheres que logo não serão mais jovens. Dar-lhes a consciência de aceitar o tempo como único fator de empoderamento.
Quem sabe será possível. Quem sabe, fora do discurso, possamos vivenciar concretamente a aceitação de nós mesmas, nesse espaço profundo de tempo que é a vida.
Talvez possamos ser um dia igualitariamente humanas, e deixar de lado essa incumbência de realizar a fantasia do outro, pelo simples fato de sermos mulheres.
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Mudanças

Os lugares têm as suas histórias, assim como as músicas e as pessoas. Uma canceriana ter de mudar tantas vezes deve ter um propósito que eu sempre tendo a pensar para o bem. Os lugares nos trazem histórias e daqui há algum tempo quando olharmos para trás vamos sorrir ao lembrar do nosso apartamento de Berna, assim como vamos sorrir ao olhar para aquilo que teremos construído em novas terras. Que bonita é a vida quando entendemos que cada dia é um presente e que a conquista está ligada à superação da dificuldade, não existem conquistas sem dificuldades.
Agradeço a todos que estão me ajudando à superá-las porque o certo é que não se faz nada sozinho.

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