

©CAROLINA KASTING, Poema-trabalho, 2024, da série “Poemas Visuais”, adesivo vinílico, dimensões variáveis.
Imperativo per verso
A outra
Na margem
Periférica
Sou eu, a nossa
La nuestra América
Faz do sul, o norte
Inverte o fluxo de morte
Toma o seu lugar
O centro,
O lugar onde você está
Agora.
O seu corpo.
A terra.
Rompe, destrói as margens
Barragens, mistura o barro,
Faz dele, o vermelho
Vermelho de todas as cores.
Abya Yala
Nossa hemorragia é o fluxo.
O rio.
O fio.
Rompe o movimento perverso.
Estanca o sangue.
Eu falo.
Falo.
Perverso.
Verso.
Fala.
Diz.
Diz.
Curso.
Dis-curso.
Fala, a fala,
Minha fala
Quando me deixarem falar.
Rebento.
Arrebento.
Arrebenta.
E chora.
Do gozo do perverso,
Faz verso.
Transforma o per em verso.
Per-verte.
Per-verse.
Per-verso.
Rompe as bordas, limites.
Nasce de novo.
Crava o mastro.
Qual mastro?
O nosso.
A nossa flâmula
Trêmula.
Bruxa.
Bruxulear, ressoar, cintilar.
No movimento reverso, per-verso do ser.
Mastro cravado vira fluxo hemorrágico.
Presente.
Agora.
Não mais, agora.
Agora.
Agora.
Agora.
Agora costuro meu corpo,
mas não costuro minha vida
Sou o ninho
Sou o fio
Sou o sangue
Sou a pele
Sou o fluxo
Sou o rio
Transverto a carne e sou.
Poema Profundo / Amazônia
Começo.
Ela se fez vida
Nela, foi o princípio
Abundância
Em todas as suas entranhas
Pulsa, pura, primitiva
Ela é terra, água e ar
Ela é tudo que existe
Porque sem ela não existe mar
Meio, entre começo e fim.
Como um coração, bombeia a seiva
Seu corpo não tem limite
Onipresente
São muitos corpos
Vivos,
Feitos de matéria e forma diferente
Das suas artérias
Ela é a Floresta que faz vida
No mais distante Ártico
No mais próximo Sertão
Então,
De água, terra e ar
Nasceu seu filho Homem
Elementar
Um dia, enlouquecido
Voltou-se contra si mesmo
Esse, que nasceu da sua placenta
Floresta universal
A mata
Atlântica
A selva
Amazônica,
A Taiga, Savana, Estepe, Tundra e Pluviais
Ele levantou,
Atravessou fronteiras
E do alto da sua cegueira
Enxergou dor
Fez diferença e segregou
Dos muros que construiu,
Extraiu horror
Tornou-se besta, a fera
Na esfera da morte
Alimentou-se de seus irmãos
Engoliu o próprio coração
Esse, filho de homem
Ateou fogo da mão
E perverso
Cometeu filicídio
Matou a Mãe
Detentora das almas, dos animais
Genocídio na Floresta
Suicídio
Ateou fogo no pé,
O corpo todo ao chão
Matou a própria vida
Aquela que nutre
Coração e pulmão
Cego pelo ódio,
Fez, no futuro, seus filhos sufocados
Não mais Mãe, Filho, do Pai
Carrasco, canibal
Do mundo, da vida animal.
Fim.
Eu Quero
Alçar voo para o abismo.
Viver com o coração na boca.
Ser um bicho selvagem e uma alma sublime, antagonicamente.
Tocar o céu e o inferno ao mesmo tempo.
Não pedir licença para desejar a vida.
Submergir na dor e emergir para o amor.
Recriar as minhas vísceras fora de mim.
Conversar com o coração, uma conversa surda e profunda como palavras dentro d’água. Jorrar o gozo divino do corpo carnal.
Eternizar, no nada, o ato revolucionário de um gesto efêmero.
Brincar de raposa com os seres que acreditam ser o mundo um galinheiro.
Provocar em ti o amor e o ódio, na mesma medida, para que me enlouqueça de desejo e mostre seu ardor.
Ser capaz de compreender o mundo complexo e genial que você habita.
Morar no seu planeta mesmo sabendo não pertencer a ele.
Acreditar ser potente ao enfiar a cabeça na latrina de broxadas que a sociedade nos oferece.
Amar, amar, amar e mesmo assim, ser criança mimada, porque só as crianças sabem o sentido da vida.
O sentido da vida é o amor, que, por aqui, dura um segundo, quando meu filho me beija na boca.
E lá, é eterno, onde os rios formam seus afluentes na corrente sanguínea do universo.
Flanar por cima do mundo ordinário dos homens cegos pela dor
Alçar voo para o abismo.
Viver com o coração na boca.
Ser um bicho selvagem e uma alma sublime, antagonicamente.
Tocar o céu e o inferno ao mesmo tempo.
Não pedir licença para desejar a vida.
Submergir na dor e emergir para o amor.
Recriar as minhas vísceras fora de mim.
Conversar com o coração, uma conversa surda e profunda como palavras dentro d’água. Jorrar o gozo divino do corpo carnal.
Eternizar, no nada, o ato revolucionário de um gesto efêmero.
Brincar de raposa com os seres que acreditam ser o mundo um galinheiro.
Provocar em ti o amor e o ódio, na mesma medida, para que me enlouqueça de desejo e mostre seu ardor.
Ser capaz de compreender o mundo complexo e genial que você habita.
Morar no seu planeta mesmo sabendo não pertencer a ele.
Acreditar ser potente ao enfiar a cabeça na latrina de broxadas que a sociedade nos oferece.
Amar, amar, amar e mesmo assim, ser criança mimada, porque só as crianças sabem o sentido da vida.
O sentido da vida é o amor, que, por aqui, dura um segundo, quando meu filho me beija na boca.
E lá, é eterno, onde os rios formam seus afluentes na corrente sanguínea do universo.