Imagem

O Todo Pequenino

As coisas que vão no meu coração

não podem ser ditas

Pelo seu teor ordinário

Pelo seu imenso senso de inutilidade

Carrego em meu coração a humanidade
Desde a sua genesis ao seu fim
tudo aquilo que não é somente de mim
Sofro, por amor
Aquele do poeta
Aquele mundano que não se presta

As coisas que carregam meu coração
Não precisam ser ditas
São do mais elevado sofrer
São do mais rebaixado querer.

Quando somos o que desejamos
Não somos nada
Somos a humanidade inteira

Somos o caminho precário do todo pequenino.

Imagem

Às mulheres

Sempre me pergunto por que a história das mulheres não as reconhece em suas potencialidades. Há sempre uma grande luta que travamos com nós mesmas, lutamos para ser possível exercer nossas potencialidades e ao mesmo tempo, corresponder ao que está designado para nós, pois aquilo que está designado para nós, tende sempre a abafar ou a camuflar nossas potencialidades.

Aprendemos a vender ao outro aquilo que somos em nossa inteireza. Digo isto, ao fazer uma auto crítica, percebendo que aos quarenta e três anos ainda me assusto com a passagem do tempo em meu rosto e corpo, e me surpreendo ao pensar que é uma pena que aos vinte anos eu não pudesse viver toda essa plenitude que sinto agora.
Não me gosto quando me vejo, justamente porque carrego dentro de mim aquilo que me foi designado, ser para sempre jovem. Por que? Por que teria eu a capacidade inumana de ser para sempre jovem? Por que não poderia eu estampar no meu rosto as vivências que me fazem hoje ser plena de potencialidades. Por que tenho eu que parecer eternamente uma menina, pura e sem marcas? E mais uma vez não é possível ficar alegre verdadeiramente com o que sou, tornando conflituoso o sentimento que tenho de gostar muito mais de mim hoje do que antes.
Penso que, por ser atriz e vivenciar questões de uma personagem na ficção, percebo conflitos de uma outra mulher, e ao percebê-los entendo-os tão próximos de mim que poderiam ser meus.
Não ser mais jovem para viver o disparate da vida, ter responsabilidades que não me deixam voltar atrás, não me sentir plena por não parecer desejável ao perder o posto de mulher fetiche. Será que estes pensamentos são verdadeiramente meus?Pois sei que a mulher que me colocou no mundo também os tem, e a mãe dela também, e a mãe da mãe dela, perpetuando uma insatisfação que eu, Carolina, gostaria de cessar. Eu, realmente gostaria de parar com isso, mas entendo que não depende só de mim.

Me olhar no espelho, sem câmeras e dizer, que mulher bonita que sou, como sou potente, como fui capaz de ter realizado em mim tudo aquilo que desejei e somente pude fazê-lo porque vivi esses quarenta e três anos a lutar pelo que sou. E, assim servir de exemplo para as jovens mulheres que logo não serão mais jovens. Dar-lhes a consciência de aceitar o tempo como único fator de empoderamento.
Quem sabe será possível. Quem sabe, fora do discurso, possamos vivenciar concretamente a aceitação de nós mesmas, nesse espaço profundo de tempo que é a vida.
Talvez possamos ser um dia igualitariamente humanas, e deixar de lado essa incumbência de realizar a fantasia do outro, pelo simples fato de sermos mulheres.
Imagem

Mudanças

Os lugares têm as suas histórias, assim como as músicas e as pessoas. Uma canceriana ter de mudar tantas vezes deve ter um propósito que eu sempre tendo a pensar para o bem. Os lugares nos trazem histórias e daqui há algum tempo quando olharmos para trás vamos sorrir ao lembrar do nosso apartamento de Berna, assim como vamos sorrir ao olhar para aquilo que teremos construído em novas terras. Que bonita é a vida quando entendemos que cada dia é um presente e que a conquista está ligada à superação da dificuldade, não existem conquistas sem dificuldades.
Agradeço a todos que estão me ajudando à superá-las porque o certo é que não se faz nada sozinho.

#blessed #love #superação #portugal #diariodeumabrasileiraemportugal

Imagem

Perfluxo

Hoje, verdadeiramente me deixo levar.

Pelas ruas, pelos acontecimentos
Pelas atitudes, sem julgamento.

Como que entregue a um fluxo de vida

Que já se encontra a minha espera.

Hoje, verdadeiramente me deixo estar

A mercê dos fatos, dos erros e acertos
Sem espalhafato
Sem buscar um sentido para a busca

Solto-me

Caio
Levanto-me

E, sem mais, me encontro

Nesse por nada que é a vida
Então, assim, e somente assim

Torno-me dona de mim.

Imagem

Corpo da Alma.

Hoje, estava eu em diálogo sobre a necessidade feroz que sinto de fazer arte.

Algumas sentenças foram ditas:

Preciso da minha arte para me libertar da pressão da beleza sem alma. Estou envelhecendo e sinto que sem a arte eu enlouqueceria.

Artista não pode ficar na metade do caminho.

O corpo é uma bobagem. O corpo é só uma ferramenta, não pode ser uma prisão.

A aparência deve refletir a essência, a estrada. Só teme a finitude do corpo e seus sinais quem perde a conexão com a estrada da alma.

Então me deparei com essa reflexão de Alberto Caeiro:

Nos deuses a alma tem o mesmo tamanho que o corpo
E o mesmo espaço que o corpo
E é a mesma coisa que o corpo.
Por isso se diz que os deuses nunca morrem.
Por isso os deuses não têm corpo e alma
Mas só corpo e são perfeitos.
O corpo é que lhes é alma
E têm a consciência na própria carne divina…Mas o corpo perfeito é o corpo mais corpo que pode haver,
E o resto são os sonhos dos homens,
A miopia do que vê pouco.

Imagem

Minh’alma

A primeira vez que gosto da profundidade em que alcança minh’alma.

Ser diferente é algo que precisa bancar consigo. Não há saída, ou aceita-te como és ou serás para sempre infeliz. Escolhi a primeira opção, mesmo que me mantenha em contato com o mais terrível em mim.
A profundidade em que alcança minh’alma, hoje, começa a me fazer feliz.
Afinal nascemos todos sozinhos e nús, somente vestidos de sobrevivência.
A luta pela vida é sangrenta mas temos todos conosco a similaridade humana de nossas diferenças.