Um Post de Domingo ou…

…a vida é uma espiral onde os momentos se encontram em paralelo no tempo. Hoje, meu filho de um ano de idade toma banho na banheira do apartamento antigo que agora é novo, para onde nos mudamos. Há quarenta anos atrás eu tomava banho na banheira da casa dos meus pais. Lembro que passávamos sabonete no encosto da banheira para que escorregasse melhor e estava feita a nossa diversão. Simplicidade plena de alegria.

Tive vários déjà vu no apartamento novo, como se o presente fosse o passado e vice versa, como se aquilo que vivo agora já tivesse sido vivido. O tempo se movimenta em dimensões que desconhecemos.

Ver meus filhos crescerem me faz pensar na minha infância, o futuro já tão próximo vira passado e o presente se engrandece e dá sentido a vida.
A vida dança e se eterniza pelo amor, o ódio escorre pelo ralo e se esvai. Os medíocres, me condoeço deles porque jamais entenderão as sincronicidades, jamais aprenderão com as adversidades da vida. Mas meu coração é grande e eu posso ter compaixão.
A vida é muito mais do que nossa vã consciência pode alcançar.
E o retorno da curva, é certo.

Sempre Preferi o Beijo dos Namorados a Roda Gigante.

Está chegando a hora da mudança. A obra chegará ao fim. A casa nova, suada, desejada, está por se realizar. Em alguns momentos, principalmente agora que está por findar a luta, parece mais difícil suportar. As dificuldades ficam dilatadas e apesar do tempo passar rápido, parece estar congelado e pesado.
A vida real é sempre feita de causa e efeito, de ação e consequência. Não se pode anular um lado da vida. Nem a sombra, nem a luz. Confesso que sou forte na minha fragilidade, sempre fui, sempre dependi da bondade dos outros, e sempre a colhi no quintal daqueles que me amam. Confesso que muitas vezes erro por não suportar o peso que acabo suportando. Até que o fim chega e o presente se torna mais leve depois da batalha. E assim a vida passa como uma montanha russa. Nunca gostei de parques de diversões, sempre preferi o beijo dos namorados na roda gigante do que a própria roda gigante em si.
Aceito minhas fragilidades, e suporto porque preciso suportar. Para ganhar o beijo é preciso na montanha russa estar.

A Prosa e a Poesia da Vida

Hoje acordei assim, cheia de luz, cheia de cores, cheia de tons. Naturalmente, sem efeitos, sem preconceitos, uma verdadeira LGBT.
Hoje precisei dessas cores para me deixar feliz. Precisei da luz que emana delas.

Não posso falar das outras épocas que não vivi mas posso apontar para tudo que vi hoje e senti. Disso, posso extrair o pessimismo que vai nos levar ao fim ou também posso extrair possibilidades, que nos levam avante.

Muito já estudei, muito já busquei e muito já aprendi. Sempre com pessoas incríveis. Repito, o humano é a nossa riqueza.

Aprendi que existem duas maneiras de viver, pode-se viver da prosa e da poesia. A prosa da vida é tudo aquilo que você tem que fazer; acordar todos os dias, fazer a higiene do seu corpo, da sua casa, pagar contas, sobreviver. A prosa é necessária mas ela não é a vida em si. A poesia é tudo que faz a vida valer a pena, que lhe dá prazer. Viver da prosa para a poesia, talvez esse seja o movimento certo. Talvez assim possamos encontrar, ou pelo menos buscar, a felicidade. É certo, que a felicidade como verdade absoluta não existe, mas todos nós sabemos que existe a poesia. Talvez tenhamos nos afastado da poesia, com a certeza de que se a prosa estiver perfeita, um dia, apenas um dia, chegaremos lá. Esquecemos que isso não passa de uma promessa que nunca se cumpre. Perdeu-se a humanidade. Buscamos a poesia onde ela não está.

A poesia está no descuido da prosa.

Quando menos esperamos, ela aparece, ali. E não precisa-se de muito para encontrá-la. Como diria o poeta gênio Luiz Melodia, tudo que se tem não representa nada. 

A má notícia é que cada um precisa e deve encontrar a sua própria poesia sozinho. Não há como se ter poesia sem viver na prosa. É preciso coexistir. Mas também não há como encontrar a poesia sem liberdade de ser, de expressar, de falar. Portanto a máxima LGBT é a que vale como representação da liberdade. Todos podemos ser o que quisermos, todos podemos optar pelo que nos dá prazer.

Todos temos direito à própria poesia, desde que não invada a prosa do outro.

Não sei porque falei sobre isso. Falei porque enquanto estava tomando meu café da manhã, mergulhada na prosa da minha vida, a poesia adentrou pela janela e banhou o meu rosto. Falei porque me incomoda a quantidade de pessoas pedindo ajuda na rua, a quantidade de profissionais fazendo outras “prosas” para vender, para sobreviver. Me incomoda que as pessoas estejam deixando de lado aquilo que elas mais sabem fazer, para subexistir. Me incomoda que crianças queiram estudar e não consigam, porque não têm escolas.

Porque quando se tira de um povo o direito básico de existência, de prosa, a primeira coisa que ele perde é a poesia.

Vamos continuar. Não vamos abrir mão da poesia, da nossa liberdade de expressão, do nosso bem mais precioso, daquilo que nos faz mais ricos.

Viveremos da prosa com poesia, sim, seremos a cigarra e também a formiga.

Como diz o gênio poeta,

Eu sou mais forte

Eu sou mais gente

Eu sou um rei

Eu sou a pura melodia

Que é feita de amor e alegria
Luiz Melodia

http://luizmelodia.com.br/m/

Sobre Criar um Site

Site – ( subst.) lugar

To site – ( v. ) situar

E, no delicioso português de Portugal, também um sítio quer dizer um lugar.


Minha vida sempre foi um exercício de procurar me entender na realidade, encontrar um lugar e me relacionar com os outros deste lugar.
Como artista, sempre tive dificuldade de encontrar um título que desse conta do que sou, ou de qual fala é a minha.

Comecei nos palcos como bailarina, migrei para o teatro, depois comecei a fotografar e então a escrever. Passei a fazer tudo ao mesmo tempo. Me tornei o que hoje intitula-se artista multimídia.
Sigo sempre unindo as imagens com as palavras, como se elas fossem personagens sem palavra, personagens que falam, mas sem palavras, como Kattrin de Mãe Coragem de Brecht. Todas são Kattrin. Mudas falantes de uma ótica poética. E assim vou encontrando o meu lugar. Para o artista é muito importante saber o quê e como ele quer falar, só então os outros saberão ouvir.

Mas o que o site tem a ver com tudo isso? Decidi fazer meu site sozinha, porque achei muito difícil fazer esse exercício através de outra pessoa. Como tudo que faço, acabei transformando esse fazer em um crescimento pessoal e profissional. Durante o processo, que não chegou ao fim e que nunca chegará, descobri que sou uma atriz, também fotógrafa e também poeta. Parece simples e é fácil de pensar, mas ela já não sabia disso? Sabia mas não me havia contado. Contar a si mesmo o que se é, é algo difícil às vezes. Esperar que os outros digam o que você é, é um caminho inglório, na maioria das vezes.

Conclusão, o site me ajudou a encontrar um lugar; como uma cortina de fumaça, ele o desvelou. Ele contém passado, presente e futuro. Ele está constantemente em processo, como eu. Comporta unir tudo que produzo e penso em um único lugar.

Fico feliz comigo mesma. Para uma artista que entrou na web de forma bastante tardia, estou me superando.

Mas o maior prazer mesmo é compartilhar com o público. Essa é a grande glória da web. Estamos todos por aqui, juntos, misturados, separados e compartilhados.

Microcosmos

A obra é um microcosmos da vida. Você nunca sabe o que vai encontrar.

Você decide fazer uma pequena reforma no apartamento que vai morar, acha que será rápido e indolor, mas no decorrer do processo as novidades começam a surgir e a pequena reforma vira uma mega obra.

Você toma decisões o tempo todo e as consequências são reais e de sua responsabilidade; tem que lidar com as decepções e se deliciar com as conquistas. Você precisa ser firme, justo e não deixar que te explorem, porque, assim como na vida, você vai encontrar pessoas que têm ética e outras que querem ganhar vantagem em tudo.

O andamento da obra é como a vida, parece que não vai acabar nunca mas quando acaba, você pensa, inacreditável que chegou ao fim, de tanta coisa que você fez surgir do nada.

A sua casa está pronta. Você passou por tudo isso para viver momentos felizes com sua família, e se deixar o stress tomar conta, não terá mais família para viver esses momentos. Precisa se lembrar de superar as dificuldades com grandeza pelos seus filhos, pelos seus amores. Você sabe que vale a pena passar por tudo isso por amor e nada mais. E se o resultado ficar imperfeito, e ficará, porque como a vida, uma obra é imperfeita, essa será a sua casa, linda, feita das suas capacidades e as imperfeições farão dela o seu lar, para estar e amar cada minuto da sua vida, para aprender a valorizar cada centímetro conquistado e entender que as coisas têm importância na vida para concretizar o amor. Somente para isso. A solidão não vale a pena, nessa dimensão em que vivemos, acredite.

Fotos da Série Obra 

publicada em @docotidianotiraste 2017

4.2

Dei este título ao meu texto de hoje mas nunca entendi por que colocar o ponto no meio ( risos ). Gosto de falar que estou fazendo quarenta e dois anos, sem divisão de números, apesar de ser uma idade bastante complexa, em que nada parece simples. Explico.

Para mim foi muito intenso fazer quarenta, como quando fiz trinta anos porque nas duas idades tive meus dois filhos. Cora nasceu quando fiz trinta anos e Tom quando fiz quarenta e um. Duas idades emblemáticas, difíceis, que exigiram uma quebra de paradigma. Nada passou a ser como antes.

Hoje, fazer quarenta e dois anos me parece muito estranho, me sinto confusa, envelhecer se tornou visível no espelho, então penso, já era hora, em algum momento isso iria começar a acontecer ( risos ), mas ao mesmo tempo, quando olho para trás, penso, passou rápido demais! Chego a conclusão de que a vida de uma pessoa é um piscar de olhos!

Ainda tenho muita coisa para viver e sonhos para realizar. E agora, com a maturidade, me sinto realmente produtiva, muito mais capaz, e me parece estranho, que a juventude física passe assim tão rápido, porque é justamente nessa fase da vida que nos sentimos imortais. Quando somos jovens achamos que a juventude, se não eterna, demorará uma eternidade para passar ( risos ), mas ela passa e é curta, muito curta. O susto é inevitável.

E para agravar ainda mais a situação desse ser de quase “meia idade” ( risos ), fomos ensinados a acreditar que só os jovens podem sonhar e realizar seus sonhos. Talvez tenham me feito acreditar que com quarenta e dois anos, eu já devesse ter conquistado tudo? Mas, se é justamente com a maturidade que aprendemos a nos conhecer e a entender o que queremos e o que nos faz felizes. Fico confusa, me sinto solitária, você também?

Vivo uma fase de acreditar no começo, ou pelo menos em um recomeço. Tanta coisa a fazer, a conquistar. E me sinto capaz. Então, mãos a obra, Carolina! Basta acreditar, mesmo. Não me venha com medos, nem inseguranças, você já aprendeu que na vida as coisas são como nas palavras de Sanit-Exupéry, “você é responsável por aquilo que cativa” e sofre as consequências de conquistar aquilo que quer, portanto, cuidado com o que deseja ( risos ). A maturidade trouxe isso de bom, maior responsabilidade e consciência.

E na relação com o próprio corpo? Me parece igual. Aos quarenta e dois anos, já tivemos tempo suficiente de aprender o que nos faz bem, o que nos dá prazer, o que queremos e o que não queremos. O que não queremos é o mais importante nessa fase. Não aceitamos mais algo que nos faz mal em troca de algumas migalhas afetivas. A vida se torna muito mais prazerosa assim. Ter a consciência de que o esforço vale a pena para ter aquilo que se quer mas que o sacrifício sem um benefício também já não faz mais sentido.

Talvez não estejamos imunes às decepções. Decepção com o próprio corpo, que é matéria e toda matéria está sujeita a corrupção, não aquela que vemos estampada nos jornais todos os dias, e também nos decepciona, mas a corrupção da matéria, o findar da juventude.

Ah, é preciso cuidar ainda mais da saúde! Nesse aspecto, me sinto feliz. Lembra do sacrifício que traz benefício? Quando jovem, eu não fazia atividade física, não me alimentava de forma correta, não temia as noites em claro. Hoje, o cuidar de mim, faz eu me sentir mais jovem e então aceito o elogio de que pareço ter dez, quinze anos a menos, porque essa é sim a minha idade interna e ao sair da academia, ao negar um sorvete gorduroso e cheio de açucar, eu me sinto feliz! E se a vida é uma passagem, que possamos passar bem e saudáveis,  com o mínimo de dor possível.

Ontem tivemos um diálogo peculiar, meu marido e eu. Estamos em uma fase, como tantas outras, desafiadora, com filho pequeno, filha pré-adolescente e obra. Obra! É notório que estressa qualquer pessoa e separa muitos casais. Eu dizia:

– Amor da minha vida, de repente, me deu um bom humor, como um clic, uma certeza do fim, portanto, que bom o meio! Te amo.

Ele responde:

– Vc merece ser feliz!

Eu digo:

– Sim. Mereço. E você também. Então, vamos ser felizes juntos? ( risos )

– Vamos.

– Quer casar comigo? ( risos )

– Sim.
Depois de dezoito anos de relacionamento, ter este diálogo é no mínimo peculiar.

Que a juventude possa estar sempre dentro de nós, porque o fim é inevitável. Que tornemos a caminhada prazerosa porque somente assim vale a pena.

A juventude é o meu presente de quarenta e dois anos. Ou se preferirem, 4.2. ( risos )

A Re Invenção do Real

É preciso reinventar-se. É preciso abrir mão do parecer pela valorização do ser. Nós não somos o que parecemos ser, mas o que parecemos ser, nos dá um lugar aos olhos dos outros. Sem que percebamos, caminhamos para fora e nos perdemos. É preciso reinventar o ser, nessa grande ilusão do parecer. É preciso reencontrar-se a si mesmo. Olhar para dentro de si, no espelho negro do ser.

@docotidianotiraste