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Autoaceitação

Depois dos meus quarenta anos, acho que consegui alcançar uma aceitação de mim mesma. Aceitei o fato, com certo sofrimento infantil, de que não faço parte de nenhuma turma. Não sou da turma dos famosos, não sou da turma das artes plásticas, não sou da turma dos acadêmicos, apesar de ter uma imagem pública, de ser artista visual, de escrever, não correspondo o suficiente para me adequar a esses nichos. Talvez isso seja reflexo da minha singularidade, onde seria possível encontrar um grupo de pessoas iguais a mim? Sou atriz de televisão, artista visual, poeta, mãe, atriz e realizadora de peças de teatro, casada há anos, luto em defesa da biodiversidade planetária e humana, e principalmente, defendo uma vida simples e real, sem idealismos e padrões.

Peço desculpas aos que me acharem prepotente, mas, ser sincera faz parte da minha poética. Até mesmo ela, a poética, nasce da minha insatisfação. Não me pinto de ouro, reconheço a minha carne em declínio e meu espírito em ascenção.

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O FUTURO ESTÁ DE LUTO

Photo by Bob Wolfenson

Não sei, mas as coisas me parecem doer muito mais hoje do que em qualquer outro lugar. Hoje não temos lugar. Não habitamos nada. Não somos de lugar nenhum. Habitamos a rede vazia, com sua virtualidade real. As notícias chegam pelo dispositivo celular, sem licença para entrar, ou pior, sem irmos buscar.

A morte da Young, não, quem morre tão jovem, com tanto pra falar.

Tenho vontade de largar da web, sair caminhando pelo gramado da vida, pisar na terra, retirar espinhos. A dor dos espinhos reais me parece mais amena, atenta ao processo da vida, mas não, a morte sempre arranca a vida de nós. Sinto uma dor no peito, um nó na garganta, não adianta fugir. É preciso ter força, é preciso compreender, mesmo que seja impossível. As vidas são arrancadas de nós e as notícias nos invadem por essa ficção real que nós mesmos inventamos, tão devastadora e rápida, que nem mesmo a privacidade de nossas casas existe mais. Em paz.

A morte da Young, dos animais, dos meninos pretos da favela, dos nossos ancestrais. A notícia que não nos vai calar, jamais, é que são todas reais.


Como manter a sanidade nesse mundo louco?
Luta!
A luta que travamos por dentro, contra nossos fantasmas perversos
É a mesma externa, contra a bestialização da Humanidade.
Quem luta, permanece são.

Rio de Janeiro, agosto de 2019

©CarolinaKasting

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Às mulheres

Sempre me pergunto por que a história das mulheres não as reconhece em suas potencialidades. Há sempre uma grande luta que travamos com nós mesmas, lutamos para ser possível exercer nossas potencialidades e ao mesmo tempo, corresponder ao que está designado para nós, pois aquilo que está designado para nós, tende sempre a abafar ou a camuflar nossas potencialidades.

Aprendemos a vender ao outro aquilo que somos em nossa inteireza. Digo isto, ao fazer uma auto crítica, percebendo que aos quarenta e três anos ainda me assusto com a passagem do tempo em meu rosto e corpo, e me surpreendo ao pensar que é uma pena que aos vinte anos eu não pudesse viver toda essa plenitude que sinto agora.
Não me gosto quando me vejo, justamente porque carrego dentro de mim aquilo que me foi designado, ser para sempre jovem. Por que? Por que teria eu a capacidade inumana de ser para sempre jovem? Por que não poderia eu estampar no meu rosto as vivências que me fazem hoje ser plena de potencialidades. Por que tenho eu que parecer eternamente uma menina, pura e sem marcas? E mais uma vez não é possível ficar alegre verdadeiramente com o que sou, tornando conflituoso o sentimento que tenho de gostar muito mais de mim hoje do que antes.
Penso que, por ser atriz e vivenciar questões de uma personagem na ficção, percebo conflitos de uma outra mulher, e ao percebê-los entendo-os tão próximos de mim que poderiam ser meus.
Não ser mais jovem para viver o disparate da vida, ter responsabilidades que não me deixam voltar atrás, não me sentir plena por não parecer desejável ao perder o posto de mulher fetiche. Será que estes pensamentos são verdadeiramente meus?Pois sei que a mulher que me colocou no mundo também os tem, e a mãe dela também, e a mãe da mãe dela, perpetuando uma insatisfação que eu, Carolina, gostaria de cessar. Eu, realmente gostaria de parar com isso, mas entendo que não depende só de mim.

Me olhar no espelho, sem câmeras e dizer, que mulher bonita que sou, como sou potente, como fui capaz de ter realizado em mim tudo aquilo que desejei e somente pude fazê-lo porque vivi esses quarenta e três anos a lutar pelo que sou. E, assim servir de exemplo para as jovens mulheres que logo não serão mais jovens. Dar-lhes a consciência de aceitar o tempo como único fator de empoderamento.
Quem sabe será possível. Quem sabe, fora do discurso, possamos vivenciar concretamente a aceitação de nós mesmas, nesse espaço profundo de tempo que é a vida.
Talvez possamos ser um dia igualitariamente humanas, e deixar de lado essa incumbência de realizar a fantasia do outro, pelo simples fato de sermos mulheres.