Imagem

Às mulheres

Sempre me pergunto por que a história das mulheres não as reconhece em suas potencialidades. Há sempre uma grande luta que travamos com nós mesmas, lutamos para ser possível exercer nossas potencialidades e ao mesmo tempo, corresponder ao que está designado para nós, pois aquilo que está designado para nós, tende sempre a abafar ou a camuflar nossas potencialidades.

Aprendemos a vender ao outro aquilo que somos em nossa inteireza. Digo isto, ao fazer uma auto crítica, percebendo que aos quarenta e três anos ainda me assusto com a passagem do tempo em meu rosto e corpo, e me surpreendo ao pensar que é uma pena que aos vinte anos eu não pudesse viver toda essa plenitude que sinto agora.
Não me gosto quando me vejo, justamente porque carrego dentro de mim aquilo que me foi designado, ser para sempre jovem. Por que? Por que teria eu a capacidade inumana de ser para sempre jovem? Por que não poderia eu estampar no meu rosto as vivências que me fazem hoje ser plena de potencialidades. Por que tenho eu que parecer eternamente uma menina, pura e sem marcas? E mais uma vez não é possível ficar alegre verdadeiramente com o que sou, tornando conflituoso o sentimento que tenho de gostar muito mais de mim hoje do que antes.
Penso que, por ser atriz e vivenciar questões de uma personagem na ficção, percebo conflitos de uma outra mulher, e ao percebê-los entendo-os tão próximos de mim que poderiam ser meus.
Não ser mais jovem para viver o disparate da vida, ter responsabilidades que não me deixam voltar atrás, não me sentir plena por não parecer desejável ao perder o posto de mulher fetiche. Será que estes pensamentos são verdadeiramente meus?Pois sei que a mulher que me colocou no mundo também os tem, e a mãe dela também, e a mãe da mãe dela, perpetuando uma insatisfação que eu, Carolina, gostaria de cessar. Eu, realmente gostaria de parar com isso, mas entendo que não depende só de mim.

Me olhar no espelho, sem câmeras e dizer, que mulher bonita que sou, como sou potente, como fui capaz de ter realizado em mim tudo aquilo que desejei e somente pude fazê-lo porque vivi esses quarenta e três anos a lutar pelo que sou. E, assim servir de exemplo para as jovens mulheres que logo não serão mais jovens. Dar-lhes a consciência de aceitar o tempo como único fator de empoderamento.
Quem sabe será possível. Quem sabe, fora do discurso, possamos vivenciar concretamente a aceitação de nós mesmas, nesse espaço profundo de tempo que é a vida.
Talvez possamos ser um dia igualitariamente humanas, e deixar de lado essa incumbência de realizar a fantasia do outro, pelo simples fato de sermos mulheres.
Imagem

Por que os homens ficam mais bonitos e nós viramos sapos de pele fria?

Por que os homens ficam mais bonitos quando envelhecem, com suas entradas e marcas do tempo e nós, na nossa maioria, viramos barangas ou sapos de pele fria, todas com a mesma cara? Por que as marcas individuais de um homem são valorizadas e as nossas rejeitadas?
Perdemos, ou jamais olhamos no espelho nossa própria imagem com nitidez. Somos as pessoas mais julgadas da história. Nossa imagem foi construída pelo outro (homem). Mesmo que tenhamos feito no decorrer da história, atos heróicos de rebeldia, que foram muitos, ainda assim não conseguimos nos olhar no espelho e nos aceitar sem culpa.
O retorno que sempre tivemos dos outros foi taxativo, repleto de adjetivos. Adjetivos perfeitamente inalcansáveis ou degradantes.
Primeiro fomos chamadas de BRUXAS, por nossa sabedoria e sensibilidade para com a natureza, intrínsica no nosso fisiológico.
Depois, fomos taxadas de SANTAS, imaculadas ao ponto de conceber o filho de Deus, mais tarde, anuladas em nossa individualidade, fomos jogadas para fora do mercado e nos chamaram de NULAS, nem diria que nos chamavam, porque éramos como fantasmas funcionais do lar, não nos era dado o direito de opinião, e muito menos de reclamar da escravidão. Nessa época criamos nossos filhos, que eram sempre muitos (função nobre da mulher, a procriação). Com toda a força que nos é peculiar, parimos, amamentamos, alimentamos, trabalhamos, educamos, organizamos, gestamos e muitas de nós nunca foram sequer notadas.
Depois, fomos chamadas de REBELDES por nossos atos, por termos mostrado ao mundo que por trás da força masculina sempre existiu um alicerce feminino, até porque somos a fonte de todos, mas foi aí que nos enganamos. Conquistamos um espaço (tiveram que engulir a nossa potência de realização no mundo) mas esquecemos que o mundo, da forma que conhecemos, nos deu um retorno de uma imagem estereotipada na qual nem mesmo nós não reconhecemos.
Nossa noção de liberdade está um pouco equivocada a medida que nos dão opção de escolha mas não somos nós que fazemos nosso próprio caminho. Podemos sim escolher entre ser objeto sexual, guerreiras trabalhadoras, inteligentes assexuadas, feministas repulsivas, putas, mães desprovidas de auto estima.
Qual você quer ser? Eu gostaria de não ser nenhuma e ser todas ao mesmo tempo, gostaria de me ver no melhor de mim, real, humana, feminina.

Gostaria que nós mulheres a partir da consciência de que podemos construir nossa imagem no mundo, pudéssemos escolher quem desejamos ser, independente da relação com o masculino que é por demais necessária, até mesmo dentro de nós.

A consciência nos abre um caminho para entendermos que os estereótipos são armas de opressão. Ser um sex symbol pode ser um ato de transgressão como também pode corroborar com essa imagem machista de que a mulher continua a servir o homem sem direito a interesses e desejos próprios. No final, tudo acaba no interesse do homem, e arrisco dizer que aí é que reside a nossa culpa.

Este peso, podemos tirar dos nossos ombros mas só será possível quando nos olharmos no espelho e enxergarmos a imagem que queremos ter.

Fotos Pino Gomes

4.2

Dei este título ao meu texto de hoje mas nunca entendi por que colocar o ponto no meio ( risos ). Gosto de falar que estou fazendo quarenta e dois anos, sem divisão de números, apesar de ser uma idade bastante complexa, em que nada parece simples. Explico.

Para mim foi muito intenso fazer quarenta, como quando fiz trinta anos porque nas duas idades tive meus dois filhos. Cora nasceu quando fiz trinta anos e Tom quando fiz quarenta e um. Duas idades emblemáticas, difíceis, que exigiram uma quebra de paradigma. Nada passou a ser como antes.

Hoje, fazer quarenta e dois anos me parece muito estranho, me sinto confusa, envelhecer se tornou visível no espelho, então penso, já era hora, em algum momento isso iria começar a acontecer ( risos ), mas ao mesmo tempo, quando olho para trás, penso, passou rápido demais! Chego a conclusão de que a vida de uma pessoa é um piscar de olhos!

Ainda tenho muita coisa para viver e sonhos para realizar. E agora, com a maturidade, me sinto realmente produtiva, muito mais capaz, e me parece estranho, que a juventude física passe assim tão rápido, porque é justamente nessa fase da vida que nos sentimos imortais. Quando somos jovens achamos que a juventude, se não eterna, demorará uma eternidade para passar ( risos ), mas ela passa e é curta, muito curta. O susto é inevitável.

E para agravar ainda mais a situação desse ser de quase “meia idade” ( risos ), fomos ensinados a acreditar que só os jovens podem sonhar e realizar seus sonhos. Talvez tenham me feito acreditar que com quarenta e dois anos, eu já devesse ter conquistado tudo? Mas, se é justamente com a maturidade que aprendemos a nos conhecer e a entender o que queremos e o que nos faz felizes. Fico confusa, me sinto solitária, você também?

Vivo uma fase de acreditar no começo, ou pelo menos em um recomeço. Tanta coisa a fazer, a conquistar. E me sinto capaz. Então, mãos a obra, Carolina! Basta acreditar, mesmo. Não me venha com medos, nem inseguranças, você já aprendeu que na vida as coisas são como nas palavras de Sanit-Exupéry, “você é responsável por aquilo que cativa” e sofre as consequências de conquistar aquilo que quer, portanto, cuidado com o que deseja ( risos ). A maturidade trouxe isso de bom, maior responsabilidade e consciência.

E na relação com o próprio corpo? Me parece igual. Aos quarenta e dois anos, já tivemos tempo suficiente de aprender o que nos faz bem, o que nos dá prazer, o que queremos e o que não queremos. O que não queremos é o mais importante nessa fase. Não aceitamos mais algo que nos faz mal em troca de algumas migalhas afetivas. A vida se torna muito mais prazerosa assim. Ter a consciência de que o esforço vale a pena para ter aquilo que se quer mas que o sacrifício sem um benefício também já não faz mais sentido.

Talvez não estejamos imunes às decepções. Decepção com o próprio corpo, que é matéria e toda matéria está sujeita a corrupção, não aquela que vemos estampada nos jornais todos os dias, e também nos decepciona, mas a corrupção da matéria, o findar da juventude.

Ah, é preciso cuidar ainda mais da saúde! Nesse aspecto, me sinto feliz. Lembra do sacrifício que traz benefício? Quando jovem, eu não fazia atividade física, não me alimentava de forma correta, não temia as noites em claro. Hoje, o cuidar de mim, faz eu me sentir mais jovem e então aceito o elogio de que pareço ter dez, quinze anos a menos, porque essa é sim a minha idade interna e ao sair da academia, ao negar um sorvete gorduroso e cheio de açucar, eu me sinto feliz! E se a vida é uma passagem, que possamos passar bem e saudáveis,  com o mínimo de dor possível.

Ontem tivemos um diálogo peculiar, meu marido e eu. Estamos em uma fase, como tantas outras, desafiadora, com filho pequeno, filha pré-adolescente e obra. Obra! É notório que estressa qualquer pessoa e separa muitos casais. Eu dizia:

– Amor da minha vida, de repente, me deu um bom humor, como um clic, uma certeza do fim, portanto, que bom o meio! Te amo.

Ele responde:

– Vc merece ser feliz!

Eu digo:

– Sim. Mereço. E você também. Então, vamos ser felizes juntos? ( risos )

– Vamos.

– Quer casar comigo? ( risos )

– Sim.
Depois de dezoito anos de relacionamento, ter este diálogo é no mínimo peculiar.

Que a juventude possa estar sempre dentro de nós, porque o fim é inevitável. Que tornemos a caminhada prazerosa porque somente assim vale a pena.

A juventude é o meu presente de quarenta e dois anos. Ou se preferirem, 4.2. ( risos )