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Autoaceitação

Depois dos meus quarenta anos, acho que consegui alcançar uma aceitação de mim mesma. Aceitei o fato, com certo sofrimento infantil, de que não faço parte de nenhuma turma. Não sou da turma dos famosos, não sou da turma das artes plásticas, não sou da turma dos acadêmicos, apesar de ter uma imagem pública, de ser artista visual, de escrever, não correspondo o suficiente para me adequar a esses nichos. Talvez isso seja reflexo da minha singularidade, onde seria possível encontrar um grupo de pessoas iguais a mim? Sou atriz de televisão, artista visual, poeta, mãe, atriz e realizadora de peças de teatro, casada há anos, luto em defesa da biodiversidade planetária e humana, e principalmente, defendo uma vida simples e real, sem idealismos e padrões.

Peço desculpas aos que me acharem prepotente, mas, ser sincera faz parte da minha poética. Até mesmo ela, a poética, nasce da minha insatisfação. Não me pinto de ouro, reconheço a minha carne em declínio e meu espírito em ascenção.

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POEMA PROFUNDO – Amazônia

Começo.
Ela se fez vida
Nela, foi o princípio
Abundância
Em todas as suas entranhas
Pulsa pura, primitiva
Ela é terra, água e ar
Ela é tudo que existe
Porque sem ela não existe mar
Meio, entre começo e fim.

Como um coração, bombeia a seiva
Seu corpo não tem limite
Onipresente
São muitos corpos
Vivos, feitos
De matérias e formas diferentes
Das suas artérias
Ela é a Floresta que faz vida
No mais distante Ártico
No mais próximo Sertão

Então,
De água, terra e ar
Nasceu seu filho Homem
Elementar
Um dia, enlouquecido
Voltou-se contra si mesmo
Esse, que nasceu da sua placenta
Floresta universal
A mata
Atlântica
A selva
Amazônica,
A Taiga, Savana, Estepe, Tundra e Pluviais
Ele se levantou
Atravessou fronteiras
Do alto da sua cegueira
Enxergou
Fez diferença e segregou
Dos muros que construiu,
Extraiu horror
Tornou-se besta, a fera
Na esfera da morte
Alimentou-se de seus irmãos
Engoliu o próprio coração

Esse, filho de homem
Ateou fogo da mão
E perverso
Cometeu filicídio
Matou a Mãe,
Genocídio na Floresta
Detentora das almas, dos animais
Suicídio
Ateou fogo no pé,
O corpo todo ao chão
Matou a própria vida
Aquela que nutre
Coração e pulmão

Cego pelo ódio,
Fez, no futuro, seus filhos sufocados
Não mais Mãe, Filho, do Pai
Carrasco, canibal
Do mundo, da vida animal.
Fim.

Rio de Janeiro, agosto de 2019

POEMA cedido para o acervo Amazônia Chama

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O FUTURO ESTÁ DE LUTO

Photo by Bob Wolfenson

Não sei, mas as coisas me parecem doer muito mais hoje do que em qualquer outro lugar. Hoje não temos lugar. Não habitamos nada. Não somos de lugar nenhum. Habitamos a rede vazia, com sua virtualidade real. As notícias chegam pelo dispositivo celular, sem licença para entrar, ou pior, sem irmos buscar.

A morte da Young, não, quem morre tão jovem, com tanto pra falar.

Tenho vontade de largar da web, sair caminhando pelo gramado da vida, pisar na terra, retirar espinhos. A dor dos espinhos reais me parece mais amena, atenta ao processo da vida, mas não, a morte sempre arranca a vida de nós. Sinto uma dor no peito, um nó na garganta, não adianta fugir. É preciso ter força, é preciso compreender, mesmo que seja impossível. As vidas são arrancadas de nós e as notícias nos invadem por essa ficção real que nós mesmos inventamos, tão devastadora e rápida, que nem mesmo a privacidade de nossas casas existe mais. Em paz.

A morte da Young, dos animais, dos meninos pretos da favela, dos nossos ancestrais. A notícia que não nos vai calar, jamais, é que são todas reais.


Como manter a sanidade nesse mundo louco?
Luta!
A luta que travamos por dentro, contra nossos fantasmas perversos
É a mesma externa, contra a bestialização da Humanidade.
Quem luta, permanece são.

Rio de Janeiro, agosto de 2019

©CarolinaKasting

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O Todo Pequenino

As coisas que vão no meu coração

não podem ser ditas

Pelo seu teor ordinário

Pelo seu imenso senso de inutilidade

Carrego em meu coração a humanidade
Desde a sua genesis ao seu fim
tudo aquilo que não é somente de mim
Sofro, por amor
Aquele do poeta
Aquele mundano que não se presta

As coisas que carregam meu coração
Não precisam ser ditas
São do mais elevado sofrer
São do mais rebaixado querer.

Quando somos o que desejamos
Não somos nada
Somos a humanidade inteira

Somos o caminho precário do todo pequenino.

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Corpo da Alma.

Hoje, estava eu em diálogo sobre a necessidade feroz que sinto de fazer arte.

Algumas sentenças foram ditas:

Preciso da minha arte para me libertar da pressão da beleza sem alma. Estou envelhecendo e sinto que sem a arte eu enlouqueceria.

Artista não pode ficar na metade do caminho.

O corpo é uma bobagem. O corpo é só uma ferramenta, não pode ser uma prisão.

A aparência deve refletir a essência, a estrada. Só teme a finitude do corpo e seus sinais quem perde a conexão com a estrada da alma.

Então me deparei com essa reflexão de Alberto Caeiro:

Nos deuses a alma tem o mesmo tamanho que o corpo
E o mesmo espaço que o corpo
E é a mesma coisa que o corpo.
Por isso se diz que os deuses nunca morrem.
Por isso os deuses não têm corpo e alma
Mas só corpo e são perfeitos.
O corpo é que lhes é alma
E têm a consciência na própria carne divina…Mas o corpo perfeito é o corpo mais corpo que pode haver,
E o resto são os sonhos dos homens,
A miopia do que vê pouco.

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Deus é Feminino

Da série Readymade – Título Tinta Branca

Por causa de uma série de coisas pelas quais estou passando, ( escreverei sobre elas mais tarde, quando tiver atravessado a correnteza e tenha um tempo de suspiro e elevação para construir com palavras a vivência ), descobri suavemente e dolorosamente que Deus é feminino.

Ele ou melhor, Ela não pode se mostrar em toda a sua natureza, justamente pela necessidade de ser indecifrável a olhos mundanos.

Os olhos que a enxergam precisam travar uma batalha árdua em território carnal para se reencontrarem com Deus em sua poção divina. E essa poção é feminina no sentido mais amplo, da criação, da capacidade de adaptação, da descomunal força, do paradoxo que encerra em si, até mesmo da batalha a ser travada.

E talvez essa descoberta seja o despertar para o sentido de vida e morte, de construção e desconstrução, de finitude e renascimento no qual travamos nossas braçadas. No fundo, no fundo, gostaria de falar sobre isso através da arte.