Sempre Preferi o Beijo dos Namorados a Roda Gigante.

Está chegando a hora da mudança. A obra chegará ao fim. A casa nova, suada, desejada, está por se realizar. Em alguns momentos, principalmente agora que está por findar a luta, parece mais difícil suportar. As dificuldades ficam dilatadas e apesar do tempo passar rápido, parece estar congelado e pesado.
A vida real é sempre feita de causa e efeito, de ação e consequência. Não se pode anular um lado da vida. Nem a sombra, nem a luz. Confesso que sou forte na minha fragilidade, sempre fui, sempre dependi da bondade dos outros, e sempre a colhi no quintal daqueles que me amam. Confesso que muitas vezes erro por não suportar o peso que acabo suportando. Até que o fim chega e o presente se torna mais leve depois da batalha. E assim a vida passa como uma montanha russa. Nunca gostei de parques de diversões, sempre preferi o beijo dos namorados na roda gigante do que a própria roda gigante em si.
Aceito minhas fragilidades, e suporto porque preciso suportar. Para ganhar o beijo é preciso na montanha russa estar.

Microcosmos

A obra é um microcosmos da vida. Você nunca sabe o que vai encontrar.

Você decide fazer uma pequena reforma no apartamento que vai morar, acha que será rápido e indolor, mas no decorrer do processo as novidades começam a surgir e a pequena reforma vira uma mega obra.

Você toma decisões o tempo todo e as consequências são reais e de sua responsabilidade; tem que lidar com as decepções e se deliciar com as conquistas. Você precisa ser firme, justo e não deixar que te explorem, porque, assim como na vida, você vai encontrar pessoas que têm ética e outras que querem ganhar vantagem em tudo.

O andamento da obra é como a vida, parece que não vai acabar nunca mas quando acaba, você pensa, inacreditável que chegou ao fim, de tanta coisa que você fez surgir do nada.

A sua casa está pronta. Você passou por tudo isso para viver momentos felizes com sua família, e se deixar o stress tomar conta, não terá mais família para viver esses momentos. Precisa se lembrar de superar as dificuldades com grandeza pelos seus filhos, pelos seus amores. Você sabe que vale a pena passar por tudo isso por amor e nada mais. E se o resultado ficar imperfeito, e ficará, porque como a vida, uma obra é imperfeita, essa será a sua casa, linda, feita das suas capacidades e as imperfeições farão dela o seu lar, para estar e amar cada minuto da sua vida, para aprender a valorizar cada centímetro conquistado e entender que as coisas têm importância na vida para concretizar o amor. Somente para isso. A solidão não vale a pena, nessa dimensão em que vivemos, acredite.

Fotos da Série Obra 

publicada em @docotidianotiraste 2017

Há Resistência Possível pela Arte?


Ao ler um chamado para uma palestra com Rafael Cardoso no Paço Imperial, me deparei com a questão que norteia meu trabalho como artista nos últimos meses “Quais princípios podem nortear as ações de combate às transformações que ameaçam o próprio sentido coletivo da arte? Essa questão se torna ainda mais essencial num momento em que a transgressão se encontra cada vez mais domésticada no meio artístico. Há resistência possível pela arte?” 

Primeiramente, ( claro que me vem a mente #foratemer, mas esta é outra questão, ou não ) arte é resistência. Esta questão se encontra mais no cerne do artista do que da própria arte que ele produz. A arte jamais perde sua função política, de resistência, o artista é que se torna domesticado pelos meios, por causa da necessidade de sobrevivência. Aliás, essa é uma das mais nobres questões do artista, como conciliar a arte que ele quer produzir, com a sobrevivência no mercado, congelado por modismos ou velhos cânones. Realmente este é um momento em que fica mais dilatado esse conflito por causa da exacerbação da necessidade de um posicionamento politico do artista, que é considerado vagabundo ou alguém que quer mamar nas tetas da democracia, ou que vive de vento, de aplausos e belos sorrisos. Esse momento passará por fim e nós artistas sobreviveremos, com certeza, mas a questão que nos perturba e nos engrandece ao mesmo tempo ( porque nos aproxima dos grandes, que pelo que sei, experimentaram todos tais dúvidas ) é como fazer um trabalho de resistência, sem panfletos ou partidos. Como não cair no conto do domesticado e não começar a falar da maneira como todos falam. Manter a sua fala única. Esta é a resistência possível pela arte. Me parece difícil, muito difícil quando se trata de sobreviver.

Não poderei ir à palestra, porque às quartas-feiras não tenho quem fique com meu filho Tom, infelizmente, o dever de mãe me chama mais alto mas com certeza, continuarei indagando sobre isso no meu fazer. E numa tentativa de manter as esperanças, me lembrei da frase de Nietzsche, “aquilo que não nos mata, nos torna mais fortes”.

A Re Invenção do Real

É preciso reinventar-se. É preciso abrir mão do parecer pela valorização do ser. Nós não somos o que parecemos ser, mas o que parecemos ser, nos dá um lugar aos olhos dos outros. Sem que percebamos, caminhamos para fora e nos perdemos. É preciso reinventar o ser, nessa grande ilusão do parecer. É preciso reencontrar-se a si mesmo. Olhar para dentro de si, no espelho negro do ser.

@docotidianotiraste