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Corpo da Alma.

Hoje, estava eu em diálogo sobre a necessidade feroz que sinto de fazer arte.

Algumas sentenças foram ditas:

Preciso da minha arte para me libertar da pressão da beleza sem alma. Estou envelhecendo e sinto que sem a arte eu enlouqueceria.

Artista não pode ficar na metade do caminho.

O corpo é uma bobagem. O corpo é só uma ferramenta, não pode ser uma prisão.

A aparência deve refletir a essência, a estrada. Só teme a finitude do corpo e seus sinais quem perde a conexão com a estrada da alma.

Então me deparei com essa reflexão de Alberto Caeiro:

Nos deuses a alma tem o mesmo tamanho que o corpo
E o mesmo espaço que o corpo
E é a mesma coisa que o corpo.
Por isso se diz que os deuses nunca morrem.
Por isso os deuses não têm corpo e alma
Mas só corpo e são perfeitos.
O corpo é que lhes é alma
E têm a consciência na própria carne divina…Mas o corpo perfeito é o corpo mais corpo que pode haver,
E o resto são os sonhos dos homens,
A miopia do que vê pouco.

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Meu Não-suicídio Confesso

®carolinakasting

A ideia de fracasso não me sai da cabeça. Tenho tido muitos pensamentos suicidas (não há com o que se preocupar, não vou cometê-los, por causa dos meus filhos). Então, me pergunto por que teríamos que alcançar uma satisfação plena e qual o sentido da vida se não a alcançarmos?

Talvez seja esse o grande erro, que tenhamos sido incumbidos de encontrar a felicidade. Agora, tenho certeza absoluta de que ela não existe.
Quando passamos a acreditar em sua existência? Para que serve a crença na felicidade a não ser para nos sentirmos ainda mais miseráveis?

A única crença que acredito valer a pena é a crença na continuidade da vida, esta é uma crença que pode nos levar adiante, mesmo com todas as dificuldades, arbitrariedades, solidão, insatisfações e muitas outras mazelas a que nossa trajetória como ser humano nos traz, a crença no infinito nos faz querer seguir adiante porque prova a necessidade da passagem, é a prova de que essa vida é uma passagem, e se é uma passagem, nos leva a algum lugar, ou dimensão, ou energia na qual todos fazemos parte.
E o quê seria eterno aqui, além da finitude desse corpo que utilizamos como quem usa uma roupa para fazer uma viagem? O que fica é somente o que fala de nós, da finitude, da passagem, da morte. A arte. Toda arte fala da morte porque fala de nós. Toda arte é eterna apesar do artista ser finito. Quem faz a arte, finda, enquanto que sua arte permanece. O artista se cala mas sua arte continua a falar, assim como o amor, que permenece no coração de quem foi amado. Quem amou finda, mas o amor continua a amar.

Estão aí as duas formas perpétuas do homem sem que ele seja infinito. Todos sabemos que não o é, embora o materialismo tente cinicamente mostrar o contrário. A arte e o amor, as duas coisas mais subjetivas na vida de um ser humano, são elas que ao falarem da morte, ao retratarem o espaço e tempo do homem, dão sentido a essa existência.
E talvez, por causa delas e somente por elas valha a pena viver. E assim encontrar prazer nessa vida imperfeita, e tirar forças da dor, da decepção, das incapacidades, do não saber, porque talvez eles próprios sejam o sentido da luta, sem eles seriamos escravizados por um sentido de existência perfeita, sem propósito.
O erro, o tédio, a dor, ao contrário do que passamos a acreditar, é aquilo que nos move, nos faz sair do lugar.
Por isso, é evidente a inutilidade da ideia de felicidade, por isso, estamos cada vez mais deprimidos e apáticos, porque enxergamos o tempo todo nos outros essa pseudo felicidade. Ela é falsa, os outros são como nós, náufragos.
O sucesso é um verdadeiro embuste. Sucesso é passar pela vida e deixar, apesar da sua finitude, algo eterno para aqueles que ficam.
Arte e Amor são a dignificação dessa vida passageira e quem luta a vida inteira e morre sem conseguir, ainda assim merece compaixão, pois não é uma tarefa das mais fáceis. Há uma complexidade na existência humana, que somente quando se compreende em seu absoluto sentido é que se encontra a sua simplicidade.

(Para Andrei Tarkovski)

®carolinakasting
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A Terra e o Tempo, quem somos nós nesse Natal?

“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.”


Foi mesmo! Nunca vivi um ano tão intenso, tão difícil e maravilhoso ao mesmo tempo. Coisas inacreditavelmente lindas aconteceram e me deparei com situações em que a vida me disse sem rodeios: ou você muda, ou você muda. Realmente quero que o ano acabe mas não sem agradecer por estar viva e por amar meus filhos. 

Os filhos nos apresentam um espelho do que somos, daquilo que fomos. Muitas vezes é doloroso e a vontade que temos é de negar a realidade, fingir que nada está acontecendo e jogar para debaixo do tapete mas quem já viveu o suficiente e adquiriu um pouco de maturidade sabe que a realidade se impõe. Fingir que ela não existe não é uma opção. Você pode até fazer de conta que é, mas cedo ou tarde a verdade vem a tona. 

Então, qual seria a saída? Constatando que o ganho só se conquista com a dor, o jeito é encarar de frente as dificuldades e enfrentá-las. Assim, e somente assim elas somem, desaparecem, e este é o verdadeiro milagre humano, a capacidade que nós temos de mudar, de se adaptar, de se reinventar para a própria sobrevivência.

Esta é a minha mensagem de esperança para esse Natal e novo ano que se aproxima. Diante de todas as adversidades, que foram muitas, até mesmo gigantescas, no Brasil e no mundo, em 2017, a única saída é manter a esperança de forma consciente e se reinventar. Assim poderemos construir um mundo melhor. Fazer isto no micro cosmos da minha casa, com os meus filhos e no macro cosmos da minha cidade, do meu país, do nosso Planeta.
A Lei do Retorno deveria ser ensinada às crianças desde pequeninos, para que pudessem crescer sabendo que se eu jogo um lixo no chão e não me preocupo em onde ele vai parar, estou fazendo mal a mim mesmo, porque a chuva cairá, levará o meu lixo para o mar, que matará a tartaruga que não comerá as algas, e provocará um desequilíbrio ecológico. Nesse sentido podemos pensar de várias âmbitos, no ecológico, psicólogo, afetivo, físico e até mesmo estelar. 

Portanto, desejo a todos nesse Natal consciência, principalmente consciência.  Que as ferramentas possam ser usadas para nos trazer consciência e não nos alienar. 


Que em 2018 possamos continuar o esforço de compreender melhor os impulsos da natureza, dentro e fora de nós. Que possamos respeitar o sol e a sombra. Quando estivermos na noite, na escuridão, que possamos acreditar no sol, ele existe mesmo que não estejamos vendo-o. 
Que durante a calmaria possamos entender a tempestade e que durante a tempestade sejamos capazes de acreditar na calmaria. 

Somos parte da Terra e a Terra é aquilo que nos faz existir. 

Que possamos respeita-la. 


Desejo um feliz Natal para todos no espírito de respeito, amor e compaixão. 

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Dar é muito melhor do que receber.


Aos poucos vou arrumando minhas coisas no apartamento novo. As últimas caixas vão sendo esvaziadas. Passei três meses com metade das minhas coisas encaixotadas em um depósito, por causa da obra e me prometi que quando abrisse as caixas, as receberia como se fossem novas. E assim eu fiz. 

Sempre ouvi meu marido falar que as coisas que possuímos têm um fio transparente que as ligam à nós, e que quanto mais coisas você tem mais atado a fios você está, como uma prisão. Não chego a ser uma adepta do minimalismo, mas sou fã e procuro me livrar dos excessos, em todos os sentidos, no consumo, alimentação e ostentação. Tenho consciência que a liberdade está relacionada com a quantidade de coisa que uma pessoa possui. 

Na prática é um pouco mais difícil de realizar. A vida moderna, a sensação de preenchimento que o consumo dá, os presentes que ganho. Me esforço para cumprir, até porque é uma questão de ecologia e sustentabilidade. Por isso prometi a mim mesma que de tempos em tempos doaria tudo que não uso, estabelecendo um prazo. Mais de um ano sem uso? Já para a doação. E doo. Doo sem perdão. As pessoas lá em casa até brincam comigo, onde está aquela camiseta? A Carol doou ( risos ).

E assim vou tentando cumprir de forma imperfeita minha missão como cidadã. Como fazem os japoneses, vou varrendo a minha parte da calçada.

Mas hoje vivi o sublime ao encontrar nas minhas arrumações um colar que me foi dado há algum tempo atrás e que foi muito útil, não posso revelar por que ( risos ). Não o uso mais e resolvi dá-lo. Pensei em uma amiga e o milagre aconteceu. A reação dela ao receber foi tremendamente linda e emocionou a nós duas. Fiquei tão feliz com a felicidade dela que quem ganhou o presente fui eu.
Sei que este colar será muito mais útil estando com ela do que no escuro da minha gaveta, com mais um fio transparente ligado a mim. 

Tenho passado por momentos difíceis, são os quarenta e dois anos, a obra, a mudança de casa, os desafios que a vida me tem proposto. A montanha que todos nós temos que atravessar. 

É, viver a vida é coisa muito humana e dividi-la com alguém é inacreditávelmente humano. 

A minha felicidade anterior era uma premonição do que aconteceria, um presente, essa sensação maravilhosa de doar.

Mas você tem que encontra-la sozinho, o prazer de doar, ninguém pode te dar. 

Um Post de Domingo ou…

…a vida é uma espiral onde os momentos se encontram em paralelo no tempo. Hoje, meu filho de um ano de idade toma banho na banheira do apartamento antigo que agora é novo, para onde nos mudamos. Há quarenta anos atrás eu tomava banho na banheira da casa dos meus pais. Lembro que passávamos sabonete no encosto da banheira para que escorregasse melhor e estava feita a nossa diversão. Simplicidade plena de alegria.

Tive vários déjà vu no apartamento novo, como se o presente fosse o passado e vice versa, como se aquilo que vivo agora já tivesse sido vivido. O tempo se movimenta em dimensões que desconhecemos.

Ver meus filhos crescerem me faz pensar na minha infância, o futuro já tão próximo vira passado e o presente se engrandece e dá sentido a vida.
A vida dança e se eterniza pelo amor, o ódio escorre pelo ralo e se esvai. Os medíocres, me condoeço deles porque jamais entenderão as sincronicidades, jamais aprenderão com as adversidades da vida. Mas meu coração é grande e eu posso ter compaixão.
A vida é muito mais do que nossa vã consciência pode alcançar.
E o retorno da curva, é certo.

Sempre Preferi o Beijo dos Namorados a Roda Gigante.

Está chegando a hora da mudança. A obra chegará ao fim. A casa nova, suada, desejada, está por se realizar. Em alguns momentos, principalmente agora que está por findar a luta, parece mais difícil suportar. As dificuldades ficam dilatadas e apesar do tempo passar rápido, parece estar congelado e pesado.
A vida real é sempre feita de causa e efeito, de ação e consequência. Não se pode anular um lado da vida. Nem a sombra, nem a luz. Confesso que sou forte na minha fragilidade, sempre fui, sempre dependi da bondade dos outros, e sempre a colhi no quintal daqueles que me amam. Confesso que muitas vezes erro por não suportar o peso que acabo suportando. Até que o fim chega e o presente se torna mais leve depois da batalha. E assim a vida passa como uma montanha russa. Nunca gostei de parques de diversões, sempre preferi o beijo dos namorados na roda gigante do que a própria roda gigante em si.
Aceito minhas fragilidades, e suporto porque preciso suportar. Para ganhar o beijo é preciso na montanha russa estar.

Microcosmos

A obra é um microcosmos da vida. Você nunca sabe o que vai encontrar.

Você decide fazer uma pequena reforma no apartamento que vai morar, acha que será rápido e indolor, mas no decorrer do processo as novidades começam a surgir e a pequena reforma vira uma mega obra.

Você toma decisões o tempo todo e as consequências são reais e de sua responsabilidade; tem que lidar com as decepções e se deliciar com as conquistas. Você precisa ser firme, justo e não deixar que te explorem, porque, assim como na vida, você vai encontrar pessoas que têm ética e outras que querem ganhar vantagem em tudo.

O andamento da obra é como a vida, parece que não vai acabar nunca mas quando acaba, você pensa, inacreditável que chegou ao fim, de tanta coisa que você fez surgir do nada.

A sua casa está pronta. Você passou por tudo isso para viver momentos felizes com sua família, e se deixar o stress tomar conta, não terá mais família para viver esses momentos. Precisa se lembrar de superar as dificuldades com grandeza pelos seus filhos, pelos seus amores. Você sabe que vale a pena passar por tudo isso por amor e nada mais. E se o resultado ficar imperfeito, e ficará, porque como a vida, uma obra é imperfeita, essa será a sua casa, linda, feita das suas capacidades e as imperfeições farão dela o seu lar, para estar e amar cada minuto da sua vida, para aprender a valorizar cada centímetro conquistado e entender que as coisas têm importância na vida para concretizar o amor. Somente para isso. A solidão não vale a pena, nessa dimensão em que vivemos, acredite.

Fotos da Série Obra 

publicada em @docotidianotiraste 2017