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Autoaceitação

Depois dos meus quarenta anos, acho que consegui alcançar uma aceitação de mim mesma. Aceitei o fato, com certo sofrimento infantil, de que não faço parte de nenhuma turma. Não sou da turma dos famosos, não sou da turma das artes plásticas, não sou da turma dos acadêmicos, apesar de ter uma imagem pública, de ser artista visual, de escrever, não correspondo o suficiente para me adequar a esses nichos. Talvez isso seja reflexo da minha singularidade, onde seria possível encontrar um grupo de pessoas iguais a mim? Sou atriz de televisão, artista visual, poeta, mãe, atriz e realizadora de peças de teatro, casada há anos, luto em defesa da biodiversidade planetária e humana, e principalmente, defendo uma vida simples e real, sem idealismos e padrões.

Peço desculpas aos que me acharem prepotente, mas, ser sincera faz parte da minha poética. Até mesmo ela, a poética, nasce da minha insatisfação. Não me pinto de ouro, reconheço a minha carne em declínio e meu espírito em ascenção.

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EU ME DISPO

Photo by @jorgebispo

Eu me dispo
Eu me dispo da pele fake
De tudo que não me cabe
Da pele que querem superpor em mim
Eu me dispo
Da roupa que me machuca
Do rótulo que não me cura
Eu me dispo para reencontrar a menina
Tornar a ser a mulher dentro de mim
Eu me dispo para curar as dores

E me visto dos sonhos daquelas mulheres que sonharam antes de mim

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Pessoas famosas também são gente…

…como a gente.

Desenvolvo aqui um pensamento isento de moral (julgamento). Até por que, participo dos dois lados da questão que quero levantar. Não me debruço em absoluto sobre esta questão por interesses próprios mas por causa de meus filhos e consequentemente pelas crianças e jovens em geral.
Hoje em dia parece que ser famoso não é mais consequência daquilo que se faz, se tornou um objetivo em si. Nunca desejei a fama como um fim, eu queria ser reconhecida como atriz para ter a oportunidade de continuar trabalhando, sempre.
Quando a fama passa a ser um objetivo, o que se faz é o que menos importa, importa apenas conquistá-la, a qualquer preço. Mas se a fama é passageira, o que fica para depois?

©carolinakasting

Valorizar o trabalho e a qualidade do trabalho de um profissional é honrar o passado e pensar no seu futuro. Se você diz para as novas gerações que elas não precisam ser boas no que fazem, não precisam estudar, investir, progredir, aprender para conquistar um lugar na sociedade, se você diz à elas que o que importa é ser famoso e popular, você corre um grande risco de perder o principal para o futuro, a ética do saber.

©carolinakasting

Será que não estamos passando o recado de que, se você não precisa saber nada do seu “saber” para ser alguém na vida, para quê então você precisa saber?

Vivemos um momento de ode ao “zé-ninguém”, me entenda bem, não me refiro ao “zé-ninguém” do povo, aquele que luta por um lugar de sobrevivência, mas àquele que ocupa um lugar de reconhecimento e sucesso sem que tenha feito nada de relevante para isso. Assim, talvez, estejamos perdendo um dos valores mais bonitos da humanidade, o valor pelo trabalho.

E o trabalho que se fez relevante no passado, o trabalho dos profissionais que conquistaram o nosso presente fica no esquecimento. Talvez seja em função disso esses tempos tão sombrios.
A corrida por um reconhecimento imediato e gratuito, sem “o saber” é tão voraz que as pessoas estão deixando de lado “o viver” para priorizar a exposição do privado, em troca de uma promessa de fama e reconhecimento. Estão substituindo o afeto pela ideia de reconhecimento como se o reconhecimento pudesse ser gratuito, sem o esforço e a necessidade do tempo, do trabalho e do próprio viver.

Pergunto-me se as novas gerações estão percebendo a morte certa de um futuro promissor. Reconheço um movimento contrário em alguns grupos de jovens mas a maioria me parece vítima de um popularidade vazia. Os mais inteligentes e sensíveis sofrem muito com isso, porque se apercebem de que este objetivo de vida não lhes trará alegria e se angustiam, se achando inadequados ou insuficientes. No fundo sabem que o que tem valor na vida são as conquistas pelo mérito e que ganhar seguidores ou likes de maneira aleatória, só faz a vida passar sem nenhum valor real.
Em contrapartida, alguns profissionais que alçaram a fama como consequência de um trabalho realmente relevante, passam a ser objeto de desejo (consumo) e perdem o posto de gente, no sentido da desapropriação do afeto, como se não tivessem vontades, dores, amores, ilusões, inseguranças e principalmente como se não pudessem errar. Passam da condição de humanos à objetos modelo, e ganham um futuro perigoso pois quem precisa manter a fama fica a um passo do esquecimento do que lhe colocou lá, o trabalho, o ofício, palavra tão esquecida nesses tempos midiáticos. E isso para o artista é a morte certa, colocar o ego a frente da arte, alguns jamais se erguem novamente à dignidade do seu próprio eu.

©carolinakasting