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Deus é Feminino

Da série Readymade – Título Tinta Branca

Por causa de uma série de coisas pelas quais estou passando, ( escreverei sobre elas mais tarde, quando tiver atravessado a correnteza e tenha um tempo de suspiro e elevação para construir com palavras a vivência ), descobri suavemente e dolorosamente que Deus é feminino.

Ele ou melhor, Ela não pode se mostrar em toda a sua natureza, justamente pela necessidade de ser indecifrável a olhos mundanos.

Os olhos que a enxergam precisam travar uma batalha árdua em território carnal para se reencontrarem com Deus em sua poção divina. E essa poção é feminina no sentido mais amplo, da criação, da capacidade de adaptação, da descomunal força, do paradoxo que encerra em si, até mesmo da batalha a ser travada.

E talvez essa descoberta seja o despertar para o sentido de vida e morte, de construção e desconstrução, de finitude e renascimento no qual travamos nossas braçadas. No fundo, no fundo, gostaria de falar sobre isso através da arte.

 

 

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Meu Não-suicídio Confesso

®carolinakasting

A ideia de fracasso não me sai da cabeça. Tenho tido muitos pensamentos suicidas (não há com o que se preocupar, não vou cometê-los, por causa dos meus filhos). Então, me pergunto por que teríamos que alcançar uma satisfação plena e qual o sentido da vida se não a alcançarmos?

Talvez seja esse o grande erro, que tenhamos sido incumbidos de encontrar a felicidade. Agora, tenho certeza absoluta de que ela não existe.
Quando passamos a acreditar em sua existência? Para que serve a crença na felicidade a não ser para nos sentirmos ainda mais miseráveis?

A única crença que acredito valer a pena é a crença na continuidade da vida, esta é uma crença que pode nos levar adiante, mesmo com todas as dificuldades, arbitrariedades, solidão, insatisfações e muitas outras mazelas a que nossa trajetória como ser humano nos traz, a crença no infinito nos faz querer seguir adiante porque prova a necessidade da passagem, é a prova de que essa vida é uma passagem, e se é uma passagem, nos leva a algum lugar, ou dimensão, ou energia na qual todos fazemos parte.
E o quê seria eterno aqui, além da finitude desse corpo que utilizamos como quem usa uma roupa para fazer uma viagem? O que fica é somente o que fala de nós, da finitude, da passagem, da morte. A arte. Toda arte fala da morte porque fala de nós. Toda arte é eterna apesar do artista ser finito. Quem faz a arte, finda, enquanto que sua arte permanece. O artista se cala mas sua arte continua a falar, assim como o amor, que permenece no coração de quem foi amado. Quem amou finda, mas o amor continua a amar.

Estão aí as duas formas perpétuas do homem sem que ele seja infinito. Todos sabemos que não o é, embora o materialismo tente cinicamente mostrar o contrário. A arte e o amor, as duas coisas mais subjetivas na vida de um ser humano, são elas que ao falarem da morte, ao retratarem o espaço e tempo do homem, dão sentido a essa existência.
E talvez, por causa delas e somente por elas valha a pena viver. E assim encontrar prazer nessa vida imperfeita, e tirar forças da dor, da decepção, das incapacidades, do não saber, porque talvez eles próprios sejam o sentido da luta, sem eles seriamos escravizados por um sentido de existência perfeita, sem propósito.
O erro, o tédio, a dor, ao contrário do que passamos a acreditar, é aquilo que nos move, nos faz sair do lugar.
Por isso, é evidente a inutilidade da ideia de felicidade, por isso, estamos cada vez mais deprimidos e apáticos, porque enxergamos o tempo todo nos outros essa pseudo felicidade. Ela é falsa, os outros são como nós, náufragos.
O sucesso é um verdadeiro embuste. Sucesso é passar pela vida e deixar, apesar da sua finitude, algo eterno para aqueles que ficam.
Arte e Amor são a dignificação dessa vida passageira e quem luta a vida inteira e morre sem conseguir, ainda assim merece compaixão, pois não é uma tarefa das mais fáceis. Há uma complexidade na existência humana, que somente quando se compreende em seu absoluto sentido é que se encontra a sua simplicidade.

(Para Andrei Tarkovski)

®carolinakasting

Sobre Criar um Site

Site – ( subst.) lugar

To site – ( v. ) situar

E, no delicioso português de Portugal, também um sítio quer dizer um lugar.


Minha vida sempre foi um exercício de procurar me entender na realidade, encontrar um lugar e me relacionar com os outros deste lugar.
Como artista, sempre tive dificuldade de encontrar um título que desse conta do que sou, ou de qual fala é a minha.

Comecei nos palcos como bailarina, migrei para o teatro, depois comecei a fotografar e então a escrever. Passei a fazer tudo ao mesmo tempo. Me tornei o que hoje intitula-se artista multimídia.
Sigo sempre unindo as imagens com as palavras, como se elas fossem personagens sem palavra, personagens que falam, mas sem palavras, como Kattrin de Mãe Coragem de Brecht. Todas são Kattrin. Mudas falantes de uma ótica poética. E assim vou encontrando o meu lugar. Para o artista é muito importante saber o quê e como ele quer falar, só então os outros saberão ouvir.

Mas o que o site tem a ver com tudo isso? Decidi fazer meu site sozinha, porque achei muito difícil fazer esse exercício através de outra pessoa. Como tudo que faço, acabei transformando esse fazer em um crescimento pessoal e profissional. Durante o processo, que não chegou ao fim e que nunca chegará, descobri que sou uma atriz, também fotógrafa e também poeta. Parece simples e é fácil de pensar, mas ela já não sabia disso? Sabia mas não me havia contado. Contar a si mesmo o que se é, é algo difícil às vezes. Esperar que os outros digam o que você é, é um caminho inglório, na maioria das vezes.

Conclusão, o site me ajudou a encontrar um lugar; como uma cortina de fumaça, ele o desvelou. Ele contém passado, presente e futuro. Ele está constantemente em processo, como eu. Comporta unir tudo que produzo e penso em um único lugar.

Fico feliz comigo mesma. Para uma artista que entrou na web de forma bastante tardia, estou me superando.

Mas o maior prazer mesmo é compartilhar com o público. Essa é a grande glória da web. Estamos todos por aqui, juntos, misturados, separados e compartilhados.

Microcosmos

A obra é um microcosmos da vida. Você nunca sabe o que vai encontrar.

Você decide fazer uma pequena reforma no apartamento que vai morar, acha que será rápido e indolor, mas no decorrer do processo as novidades começam a surgir e a pequena reforma vira uma mega obra.

Você toma decisões o tempo todo e as consequências são reais e de sua responsabilidade; tem que lidar com as decepções e se deliciar com as conquistas. Você precisa ser firme, justo e não deixar que te explorem, porque, assim como na vida, você vai encontrar pessoas que têm ética e outras que querem ganhar vantagem em tudo.

O andamento da obra é como a vida, parece que não vai acabar nunca mas quando acaba, você pensa, inacreditável que chegou ao fim, de tanta coisa que você fez surgir do nada.

A sua casa está pronta. Você passou por tudo isso para viver momentos felizes com sua família, e se deixar o stress tomar conta, não terá mais família para viver esses momentos. Precisa se lembrar de superar as dificuldades com grandeza pelos seus filhos, pelos seus amores. Você sabe que vale a pena passar por tudo isso por amor e nada mais. E se o resultado ficar imperfeito, e ficará, porque como a vida, uma obra é imperfeita, essa será a sua casa, linda, feita das suas capacidades e as imperfeições farão dela o seu lar, para estar e amar cada minuto da sua vida, para aprender a valorizar cada centímetro conquistado e entender que as coisas têm importância na vida para concretizar o amor. Somente para isso. A solidão não vale a pena, nessa dimensão em que vivemos, acredite.

Fotos da Série Obra 

publicada em @docotidianotiraste 2017

Há Resistência Possível pela Arte?


Ao ler um chamado para uma palestra com Rafael Cardoso no Paço Imperial, me deparei com a questão que norteia meu trabalho como artista nos últimos meses “Quais princípios podem nortear as ações de combate às transformações que ameaçam o próprio sentido coletivo da arte? Essa questão se torna ainda mais essencial num momento em que a transgressão se encontra cada vez mais domésticada no meio artístico. Há resistência possível pela arte?” 

Primeiramente, ( claro que me vem a mente #foratemer, mas esta é outra questão, ou não ) arte é resistência. Esta questão se encontra mais no cerne do artista do que da própria arte que ele produz. A arte jamais perde sua função política, de resistência, o artista é que se torna domesticado pelos meios, por causa da necessidade de sobrevivência. Aliás, essa é uma das mais nobres questões do artista, como conciliar a arte que ele quer produzir, com a sobrevivência no mercado, congelado por modismos ou velhos cânones. Realmente este é um momento em que fica mais dilatado esse conflito por causa da exacerbação da necessidade de um posicionamento politico do artista, que é considerado vagabundo ou alguém que quer mamar nas tetas da democracia, ou que vive de vento, de aplausos e belos sorrisos. Esse momento passará por fim e nós artistas sobreviveremos, com certeza, mas a questão que nos perturba e nos engrandece ao mesmo tempo ( porque nos aproxima dos grandes, que pelo que sei, experimentaram todos tais dúvidas ) é como fazer um trabalho de resistência, sem panfletos ou partidos. Como não cair no conto do domesticado e não começar a falar da maneira como todos falam. Manter a sua fala única. Esta é a resistência possível pela arte. Me parece difícil, muito difícil quando se trata de sobreviver.

Não poderei ir à palestra, porque às quartas-feiras não tenho quem fique com meu filho Tom, infelizmente, o dever de mãe me chama mais alto mas com certeza, continuarei indagando sobre isso no meu fazer. E numa tentativa de manter as esperanças, me lembrei da frase de Nietzsche, “aquilo que não nos mata, nos torna mais fortes”.

Um Corpo Caído no Chão 


Vivemos tempos tão sombrios que um simples pano caído no chão se transforma na mente da gente e nos faz lembrar o que não se pode mais evitar. O transbordar da desigualdade, o que exige da caridade a máxima elasticidade. Temos que ser todos elasticos para fugir das balas, das palavras de ordem e desordem. Do amanhã que parece incerto. Não. Não queremos fugir, queremos mudar, queremos olhar no olho daquele que ainda não foi, que ainda não deitou seu corpo no chão e dizer: irmão, quero teu braço, teu abraço, porque também como tu sou filho do Brasil. Um Brasil acorrentado, despedaçado mas que ainda reluz. Reluz o sol de Brasília, reluz o céu do sertão, reluz a praia no chão. Reluz, apesar daqueles que não sei de onde vieram tão cruéis. A crueza, sim, essa crueza, não vai anular a beleza de um povo lindo e feliz, do matiz da nossa voz. Um corpo estendido no chão vale. Vale a lágrima que escorre e silenciosa, alcança o peito para transformar em força a dor. Agora, tantos clamores em uma só voz. Por nós.