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No Dia em que me Encontrei por Inteiro

Alguns momentos são tão profundos que chegamos a nos sentir imateriais, na constatação de que essa dimensão não passa de uma linha tênue. 

Parece que um passo a frente e nos juntariamos à chama única da vida, sem matéria, sem dor, sem dualidade, apenas o todo.  

Navegamos na dimensão do humano, da dualidade, do caos, como passagem, a passagem é necessária ou não seria possível suportar a imensa luz.

É preciso ultrapassar o humano para aceitar o divino.

Microcosmos

A obra é um microcosmos da vida. Você nunca sabe o que vai encontrar.

Você decide fazer uma pequena reforma no apartamento que vai morar, acha que será rápido e indolor, mas no decorrer do processo as novidades começam a surgir e a pequena reforma vira uma mega obra.

Você toma decisões o tempo todo e as consequências são reais e de sua responsabilidade; tem que lidar com as decepções e se deliciar com as conquistas. Você precisa ser firme, justo e não deixar que te explorem, porque, assim como na vida, você vai encontrar pessoas que têm ética e outras que querem ganhar vantagem em tudo.

O andamento da obra é como a vida, parece que não vai acabar nunca mas quando acaba, você pensa, inacreditável que chegou ao fim, de tanta coisa que você fez surgir do nada.

A sua casa está pronta. Você passou por tudo isso para viver momentos felizes com sua família, e se deixar o stress tomar conta, não terá mais família para viver esses momentos. Precisa se lembrar de superar as dificuldades com grandeza pelos seus filhos, pelos seus amores. Você sabe que vale a pena passar por tudo isso por amor e nada mais. E se o resultado ficar imperfeito, e ficará, porque como a vida, uma obra é imperfeita, essa será a sua casa, linda, feita das suas capacidades e as imperfeições farão dela o seu lar, para estar e amar cada minuto da sua vida, para aprender a valorizar cada centímetro conquistado e entender que as coisas têm importância na vida para concretizar o amor. Somente para isso. A solidão não vale a pena, nessa dimensão em que vivemos, acredite.

Fotos da Série Obra 

publicada em @docotidianotiraste 2017

Há Resistência Possível pela Arte?


Ao ler um chamado para uma palestra com Rafael Cardoso no Paço Imperial, me deparei com a questão que norteia meu trabalho como artista nos últimos meses “Quais princípios podem nortear as ações de combate às transformações que ameaçam o próprio sentido coletivo da arte? Essa questão se torna ainda mais essencial num momento em que a transgressão se encontra cada vez mais domésticada no meio artístico. Há resistência possível pela arte?” 

Primeiramente, ( claro que me vem a mente #foratemer, mas esta é outra questão, ou não ) arte é resistência. Esta questão se encontra mais no cerne do artista do que da própria arte que ele produz. A arte jamais perde sua função política, de resistência, o artista é que se torna domesticado pelos meios, por causa da necessidade de sobrevivência. Aliás, essa é uma das mais nobres questões do artista, como conciliar a arte que ele quer produzir, com a sobrevivência no mercado, congelado por modismos ou velhos cânones. Realmente este é um momento em que fica mais dilatado esse conflito por causa da exacerbação da necessidade de um posicionamento politico do artista, que é considerado vagabundo ou alguém que quer mamar nas tetas da democracia, ou que vive de vento, de aplausos e belos sorrisos. Esse momento passará por fim e nós artistas sobreviveremos, com certeza, mas a questão que nos perturba e nos engrandece ao mesmo tempo ( porque nos aproxima dos grandes, que pelo que sei, experimentaram todos tais dúvidas ) é como fazer um trabalho de resistência, sem panfletos ou partidos. Como não cair no conto do domesticado e não começar a falar da maneira como todos falam. Manter a sua fala única. Esta é a resistência possível pela arte. Me parece difícil, muito difícil quando se trata de sobreviver.

Não poderei ir à palestra, porque às quartas-feiras não tenho quem fique com meu filho Tom, infelizmente, o dever de mãe me chama mais alto mas com certeza, continuarei indagando sobre isso no meu fazer. E numa tentativa de manter as esperanças, me lembrei da frase de Nietzsche, “aquilo que não nos mata, nos torna mais fortes”.

Um Corpo Caído no Chão 


Vivemos tempos tão sombrios que um simples pano caído no chão se transforma na mente da gente e nos faz lembrar o que não se pode mais evitar. O transbordar da desigualdade, o que exige da caridade a máxima elasticidade. Temos que ser todos elasticos para fugir das balas, das palavras de ordem e desordem. Do amanhã que parece incerto. Não. Não queremos fugir, queremos mudar, queremos olhar no olho daquele que ainda não foi, que ainda não deitou seu corpo no chão e dizer: irmão, quero teu braço, teu abraço, porque também como tu sou filho do Brasil. Um Brasil acorrentado, despedaçado mas que ainda reluz. Reluz o sol de Brasília, reluz o céu do sertão, reluz a praia no chão. Reluz, apesar daqueles que não sei de onde vieram tão cruéis. A crueza, sim, essa crueza, não vai anular a beleza de um povo lindo e feliz, do matiz da nossa voz. Um corpo estendido no chão vale. Vale a lágrima que escorre e silenciosa, alcança o peito para transformar em força a dor. Agora, tantos clamores em uma só voz. Por nós.

“Eu sou uma atriz, mas não sou só uma atriz”

Disse Audrey Tautou em sua mais recente entrevista ao NY Times https://mobile.nytimes.com/slideshow/2017/06/20/t-magazine/audrey-tautou-superfacial/s/19tmag-audrey-slide-3S87.html?referer=http://m.facebook.com/
referindo-se ao seu trabalho de fotografia, intitulado Superfacial.
Uma série de autorretratos e algumas fotos de jornalistas que a entrevistaram no decorrer de sua carreira.
Achei muito oportuna e mais que isso, necessária essa referência a medida que também faço um trabalho autoral com fotografia e grande parte dele com autorretratos. Durante algum tempo, senti o preconceito dos dois campos, das artes plásticas e da atuação. Cheguei a ouvir que eu deveria me decidir entre ser atriz ou fotógrafa. Sinto que meu trabalho fala justamente de ir além desta visão especialista.

Muitas vezes quando a sua imagem é conhecida do grande público, torna-se essencial ao artista questionar a própria natureza da fama. Transpondo seu trabalho para além dela.
Quando Audrey Tautou diz que é uma atriz mas não só uma atriz, refere-se à sua identidade como artista, revelando toda a sua complexidade, independentemente da fama. Falar sobre isso, é, de certa forma uma subversão, aceita por alguns e rejeitada por muitos. Mas os artistas estão, cada vez mais utilizando meios de produção comuns em seus trabalhos autorais, e ousando redimensionar a imagem em um mundo que a banalisa ao extremo.
Numa época em que selfies de atrizes famosas valem muitos likes, redefinir a imagem é uma atitude corajosa e eu diria, até mesmo de vanguarda. Na busca pela originalidade utilizando algo do senso comum, Audrey subverte o que se espera de uma atriz. Afinal você é aquilo que se propõe ser e não o inverso.

Portal

Esta coisa que chamamos humanos.

Este caminho que chamamos vida.

Este nada que chamamos morte.

Este tudo que chamamos amor.

Esta prisão que chamamos fome.

Esta pedra que chamamos possibilidade.

Este fim que chamamos guerra.

Este começo que chamamos compaixão.

Este andar que chamamos humanidade.

( poesia Portal, fotografia/local Paço Imperial – Rio de Janeiro, em 16 de junho de 2017 )

No Instagram vocês podem conhecer um pouco do meu trabalho como artista visual.

@docotidianotiraste 

Projeto Do Cotidiano Tiraste Poesia.

A ideia é extrair do cotidiano a poesia visual e fazer a intersecção da imagem com a poesia escrita.