Poet

O Todo Pequenino

As coisas que vão no meu coração
não podem ser ditas
Pelo seu teor ordinário
Pelo seu imenso senso de inutilidade
Carrego em meu coração a humanidade
Desde a sua genesis ao seu fim
tudo aquilo que não é somente de mim
Sofro, sofro por amor
Aquele do poeta
Aquele mundano que não se presta
As coisas que carregam meu coração
Não precisam ser ditas
São do mais elevado sofrer
São do mais rebaixado querer.
Quando somos o que desejamos
Não somos nada
Somos a humanidade inteira
Somos o caminho precário do todo pequenino.

Lisboa, 2018


Perfluxo

Hoje, verdadeiramente me deixo levar.

Pelas ruas, pelos acontecimentos

Pelas atitudes, sem julgamento

Como que entregue a um fluxo de vida

Que já se encontra a minha espera.

Hoje, verdadeiramente me deixo estar
A mercê dos fatos, dos erros e acertos

Sem espalhafato

Sem buscar um sentido para a busca

Solto-me
Caio
Levanto-me
E, sem mais, me encontro
Nesse por nada que é a vida

Então, assim, e somente assim
Torno-me dona de mim.

Lisboa, 2018


Alice, o Saber…

Eu não sei, diria Alice. Alice cai no buraco, porque não sabe. De todas as coisas, o melhor da Alice é não saber. Porque não se sabe nada. O que fez a Alice atravessar o espelho? O não saber. O autêntico não saber. Enquanto não se sabe, se vive, e a sensação angustiante do não saber é o que nos leva adiante. Quem sabe está morto e não busca jamais. Mas não se iluda, a ilusão de que um dia saberás é o que te leva adiante. A esperança de saber. Alice vai crescer, porque quer saber. E quando souber aquilo que queria saber, vai buscar outro saber e assim por diante, diante dos olhos, vai querer ver e como todos nós, vai perder a inocência da certeza de não saber. Portanto, não saiba, Alice, o melhor em ti é o não saber. Conviva com ele e cresça com a dúvida do viver.

Rio de Janeiro 2017


Às Vezes

às vezes sinto uma discórdia dentro de mim
e penso que o ser humano é ruim
então penso nas crianças
com elas tudo parece ir bem
quando será que deixamos a nossa criança morrer?
as vezes me parece que o pior castigo é infringido aos bons de coração
aos que por determinação se recusam a se perder
continuar
continuar
sempre me perguntei porque a velha senhora quer comer João e Maria
a eterna luta do bem contra o mal
a sensação de ver a ruína e não poder fazer nada
pode-se no âmbito pessoal mas não se pode contra o grande mal, o grande Brother que nos observa a todos
e em silêncio se propaga
como continuar tendo esperança
sem mentir para a criança
é preciso
é preciso
mesmo sentindo a discórdia
em mim
em ti
em nós
persistir
ressuscitar a criança moribunda que caminha pela floresta, abandonada, sozinha e acreditar que há um grande propósito
que a discórdia terá fim
Rio de Janeiro, 2017

Sinto Falta

Sinto falta de você dentro da minha barriga
Numa atitude egoísta
Sinto sim
Porque você fez me sentir a mulher maravilha
De tudo eu fazia
Corria, brincava, cantava
Me sentia mais forte do que a própria vida
E ria
Mas agora o vejo
Cantar, falar, correr, dançar
E meu coração de mãe se regozija
E desejo todo o amor, meu mundo, para ti
Sinto medo de te perder
Mas o maior medo
O medo de quem já o teve dentro de si
É o de que não sejas feliz
Mas toda aquela força
Que outrora senti
Ficou aqui, marcada no corpo
Me preparou ainda mais para o que está por vir
Obrigada, meu filho
Não fui eu somente que te pari
Pariste a força de dentro de mim
Agora vamos juntos enfrentar as dores e os amores da vida
Porque como diz o poeta
Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
Rio de Janeiro 2017