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Meu Não-suicídio Confesso

®carolinakasting

A ideia de fracasso não me sai da cabeça. Tenho tido muitos pensamentos suicidas (não há com o que se preocupar, não vou cometê-los, por causa dos meus filhos). Então, me pergunto por que teríamos que alcançar uma satisfação plena e qual o sentido da vida se não a alcançarmos?

Talvez seja esse o grande erro, que tenhamos sido incumbidos de encontrar a felicidade. Agora, tenho certeza absoluta de que ela não existe.
Quando passamos a acreditar em sua existência? Para que serve a crença na felicidade a não ser para nos sentirmos ainda mais miseráveis?

A única crença que acredito valer a pena é a crença na continuidade da vida, esta é uma crença que pode nos levar adiante, mesmo com todas as dificuldades, arbitrariedades, solidão, insatisfações e muitas outras mazelas a que nossa trajetória como ser humano nos traz, a crença no infinito nos faz querer seguir adiante porque prova a necessidade da passagem, é a prova de que essa vida é uma passagem, e se é uma passagem, nos leva a algum lugar, ou dimensão, ou energia na qual todos fazemos parte.
E o quê seria eterno aqui, além da finitude desse corpo que utilizamos como quem usa uma roupa para fazer uma viagem? O que fica é somente o que fala de nós, da finitude, da passagem, da morte. A arte. Toda arte fala da morte porque fala de nós. Toda arte é eterna apesar do artista ser finito. Quem faz a arte, finda, enquanto que sua arte permanece. O artista se cala mas sua arte continua a falar, assim como o amor, que permenece no coração de quem foi amado. Quem amou finda, mas o amor continua a amar.

Estão aí as duas formas perpétuas do homem sem que ele seja infinito. Todos sabemos que não o é, embora o materialismo tente cinicamente mostrar o contrário. A arte e o amor, as duas coisas mais subjetivas na vida de um ser humano, são elas que ao falarem da morte, ao retratarem o espaço e tempo do homem, dão sentido a essa existência.
E talvez, por causa delas e somente por elas valha a pena viver. E assim encontrar prazer nessa vida imperfeita, e tirar forças da dor, da decepção, das incapacidades, do não saber, porque talvez eles próprios sejam o sentido da luta, sem eles seriamos escravizados por um sentido de existência perfeita, sem propósito.
O erro, o tédio, a dor, ao contrário do que passamos a acreditar, é aquilo que nos move, nos faz sair do lugar.
Por isso, é evidente a inutilidade da ideia de felicidade, por isso, estamos cada vez mais deprimidos e apáticos, porque enxergamos o tempo todo nos outros essa pseudo felicidade. Ela é falsa, os outros são como nós, náufragos.
O sucesso é um verdadeiro embuste. Sucesso é passar pela vida e deixar, apesar da sua finitude, algo eterno para aqueles que ficam.
Arte e Amor são a dignificação dessa vida passageira e quem luta a vida inteira e morre sem conseguir, ainda assim merece compaixão, pois não é uma tarefa das mais fáceis. Há uma complexidade na existência humana, que somente quando se compreende em seu absoluto sentido é que se encontra a sua simplicidade.

(Para Andrei Tarkovski)

®carolinakasting

5 comentários sobre “Meu Não-suicídio Confesso

  1. obrigada por tanta vida. sob medida estas palavras para o começo de 2018, que inicia sob a pressão de fazer tudo dar certo. ser diferente. radicalmente novo. enquanto o dia a dia nos deixa mais ordinários do que gostaríamos. ❤ "Há uma complexidade na existência humana, que somente quando se compreende em seu absoluto sentido é que se encontra a sua simplicidade." seu texto ajudou muito nesta busca. de verdade, obrigada.

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  2. Todo sonho é por natureza pura expectativa. Ora, a expectativa pode parir uma frustração, uma decepção ou ate novo sonho né? A questão seria em que medida , ou qual o tamanho de nossa expectativa frente a uma chata realidade? Cuidado com isso porque certamente os resultados serão diretamente proporcionais. Também, vez por outra me pego pensando negativamente e tento diluir tudo isso com artes, manhas (e algum wiskie) que são próprias a mim.
    Uma delas é justo gerar um novo sonho, talvez mais alcançável…
    e não, não é uma repetição!
    Então penso : que tal reviver e curtir aquele bom e único momento? Besteira, se foi único não se repetira… Mas afinal quem determinou que sucesso era “isso ou aquilo”, e que uma pessoa “precisa do sucesso pra ser feliz” ? Ninguém…
    Estar feliz é um “estado de sucesso” acho que com isso me convenço que to de boas, e bola pra frente porque se aprofundar demais “enzurêta legal” que nem eu fiquei quando li a Euforia Perpétua de Pascal Bruckner. Apesar de forte eu recomendo. Abraços.

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